IH-1301 – Seminário de Política na Contemporaneidade – 2021-1

UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO
UFRRJ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

DISCIPLINA: IH-1301 – Seminário de Política na Contemporaneidade – 2021- 1
CRÉDITOS: 3
HORÁRIO: Quintas-feiras, 15hs – 18hs
LOCAL: Ambiente Virtual/Encontros síncronos no Microsoft Teams

Prof. Dr. Walter Valdevino (Departamento de Filosofia – UFRRJ)
waltervaldevino@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/1105208560294285
http://www.waltervaldevino.com/ seminario-de-politica-na-contemporaneidade-2021-1

[Quem desejar cursar como ouvinte a disciplina basta enviar e-mail com uma breve descrição do currículo e/ou interesses acadêmicos para: waltervaldevino@gmail.com]

EMENTA:

Neste ano de 2021, comemora-se os 100 anos de nascimento do filósofo norte-americano John Rawls (1921-2002) e os 50 anos da publicação de sua mais importante obra, Uma teoria da justiça.[1] No Capítulo VIII da obra (“O Senso de Justiça”), Rawls trata dos princípios da psicologia moral vinculados à tradição do pensamento racionalista, cuja fundamentação empírica na área da Psicologia está em Jean Piaget (1896-1980) e Lawrence Kohlberg (1927-1987). Kohlberg aprofundou a visão de Piaget, aplicando-a para a teoria do desenvolvimento moral humano, que se daria em três níveis: o Pré-Convencional (relações de autoridade, punição e obediência), o Convencional (conformidade à ordem do grupo e da sociedade) e o Pós-Convencional (princípios éticos universais). Rawls afirma que, para sua própria teoria fazer sentido, “convém que a teoria psicológica do aprendizado moral seja verdadeira e esteja de acordo com os conhecimentos existentes”.[2]

Já o filósofo alemão Jürgen Habermas (1929-) fundamenta sua teoria, ao longo de 40 anos de pesquisa (1974 a 2009) nos elementos centrais da psicologia moral de Kohlberg, de quem adota o termo pós-convencional. O termo descreve o “nível de desenvolvimento motivacional (normalmente generalizado em sociedades pós-tradicionais) quando eles [os agentes] enfrentam um conflito prático”.[3] Para Habermas, é somente nesse nível pós-convencional que “o Princípio U, uma regra de universalização, estabelece os pressupostos pragmáticos do discurso prático”.[4] Em 2016, na obra Philosophical introductions: five approaches to communicative reason,[5] – que compila textos escritos poucos anos antes de cinco das principais áreas abordadas por ele ao longo da carreira – Habermas volta a colocar a teoria de Kohlberg como o fundamento de sua ética do discurso e de sua teoria moral.

Rawls e Habermas, os dois grandes nomes da teoria política democrática da Filosofia Contemporânea, portanto, fundamentam suas teorias nos pressupostos do desenvolvimento moral de Lawrence Kohlberg. O que estaria errado em relação a isso? Como explica a filósofa e psicóloga feminista Carol Gilligan,

“… os seis estágios de Kohlberg (1958, 1981) que descrevem o desenvolvimento do julgamento moral da infância à idade adulta baseiam-se empiricamente em um estudo com oitenta e quatro meninos cujo desenvolvimento Kohlberg seguiu por um período de mais de vinte anos. Embora Kohlberg reivindique universalidade para sua sequência de estágios, os grupos não incluídos em sua amostra original raramente atingem seus estágios mais elevados” (Edwards, 1975; Holstein, 1976; Simpson, 1974).”[6]

A teoria de Kohlberg, portanto, nem é verdadeira, nem está de acordo com os conhecimentos existentes. Os pressupostos de desenvolvimento cognitivo e moral de Piaget e Kohlberg foram fortemente contestados pela revolução cognitiva iniciada a partir da década de 1950 (e radicalizada nas décadas de 1970 e 1980). Os mais recentes desenvolvimentos em psicologia evolutiva também jogaram por terra os pressupostos que fundamentam as duas principais teorias contemporâneas igualitária liberal (Rawls) e do discurso (Habermas).

Os pressupostos equivocados de Rawls e Habermas, portanto, geraram graves consequências para vertentes da Filosofia Política que se tornaram incapazes de refletir sobre os problemas políticos contemporâneos. Como afirma Katrina Forrester, essa vertente da Filosofia Política tornou-se elitista e fortemente equivocada sobre a natureza dos indivíduos e sobre como se dão os processos de decisão política. As ideias e conceitos se tornaram impenetráveis e passaram a ser expostos em uma linguagem exclusiva para iniciados, de compreensão difícil até mesmo para pessoas instruídas, mas de outras áreas. Houve um enorme isolamento em relação a áreas afins como História, Antropologia e Ciência Política, tornando a discussão excessivamente abstrata, dependente de experimentos hipotéticos e apartada dos fenômenos políticos do mundo real. Isso tudo enclausurou esses teóricos em estruturas conceituais voltadas para as ideias de consenso, acordo, deliberação, universabilidade etc., deixando pouco espaço para a visão da política como conflito e dissenso.[7]

O curso, portanto, tem como objetivo, primeiramente, apresentar, de forma condensada, as teorias de Rawls e Habermas e sua fundamentação em Lawrence Kohlberg, para depois mostrar as razões pelas quais esse tipo de psicologia moral equivocada tornou essas teorias demasiadamente abstratas e impotentes para discutir diversas questões políticas contemporâneas.

Após isso, no segundo momento do curso, passaremos à leitura integral e à discussão da impactante obra The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous, do antropólogo Joseph Henrich, atualmente Chefe do Departamento de Biologia Evolutiva Humana da Universidade de Harvard. Na obra, Henrich mostra como estudos de psicologia, como os de Kohlberg, foram, por décadas, baseados em experimentos e questionários feitos com 96% de estudantes universitários de sociedades do norte da Europa, América do Norte e Austrália, sendo que, desse total, 70% eram de universitários de instituições nos Estados Unidos. O resultado foi uma visão completamente distorcida sobre a natureza humana, que passou a ter suas características apresentadas como se fossem traços universais. Henrich cunhou o acrônico WEIRD – “esquisito” – para descrever essa visão bastante particular de mundo, só aplicável a uma pequena elite de pessoas ocidentais, educadas, de sociedades industrializadas, ricas e de países democráticos (Western, Educated, Industrialized, Rich, and Democratic). Trata-se de uma descrição de pessoas que sequer são maioria dentro das próprias democracias ocidentais.

Em uma época em que se fala tanto em “decolonialidade”, é fundamental entender as origens e equívocos de concepções políticas equivocadas, idealizadas e ingênuas que são incapazes de nos oferecer recursos conceituais para tratar de questões como desigualdades provenientes de explorações passadas, racismo, falta de representatividade política, influência do dinheiro na política etc. Todos esses fenômenos ocorrem em sociedades cuja evolução política passa longe de qualquer ideia de consenso, princípios de justiça e deliberação pública.

PRÉ-REQUISITO:

Leitura fluente em língua inglesa.

AVALIAÇÃO:

Trabalho escrito a ser definido ao longo do curso.

CRONOGRAMA:

Março

11/03/21 – Rawls, John. Justiça como equidade: Uma reformulação. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

18/03/21 – Rawls, John. “Capítulo VIII – O Senso de Justiça”. In Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2016.

 25/03/21 – Kohlberg, Lawrence. “The Claim to Moral Adequacy of a Highest Stage of Moral Judgment”. In Weithman, Paul J. (org). Moral Psychology and Community. The Philosophy of Rawls. A Collection of Essays. Vol. 4. Garland Publishing, 1999.

Abril

01/04/21 – Habermas, Jürgen. “Desenvolvimento da moral e Identidade do Eu”. In Para a reconstrução do materialismo histórico. Unesp, 2016.

08/04/21 – Habermas, Jürgen. Philosophical Introductions: Five Approaches to Communicative Reason. Polity Press, 2018.

15/04/21 – Gilligan, Carol. In a different voice: Psychological Theory and Women’s Development. Harvard University Press, 1982. Letter to Readers; Acknowledgments; Introduction; 1 – Woman’s Place in Man’s Life Cycle; 2 Images of Relationship; 3 – Concepts of Self and Morality.

22/04/21 – Forrester, Katrina. In the Shadow of Justice: Postwar Liberalism and the Remaking of Political Philosophy. Princeton University Press, 2019. Prefácio.

29/04/21 – Henrich, J., Heine, S., & Norenzayan, A. “The weirdest people in the world?” In Behavioral and Brain Sciences, 2010, 33(2-3), pp. 61-83.

Maio

06/05/21 – Henrich, Joseph. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Farrar, Straus and Giroux, 2020. Prefácio, Prelúdio e Capítulos 1 e 2.

13/05/21 – RECESSO. NÃO HAVERÁ AULA.

20/05/21 – RECESSO. NÃO HAVERÁ AULA.

27/05/21 – Henrich, Joseph. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Farrar, Straus and Giroux, 2020. Capítulos 3 e 4.

Junho

03/06/21 – FERIADO. NÃO HAVERÁ AULA.

10/06/21 – Henrich, Joseph. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Farrar, Straus and Giroux, 2020. Capítulos 5 e 6.

17/06/21 – Henrich, Joseph. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Farrar, Straus and Giroux, 2020. Capítulos 7 e 8.

24/06/21 – Henrich, Joseph. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Farrar, Straus and Giroux, 2020. Capítulos 9 e 10.

Julho

01/07/21 – Henrich, Joseph. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Farrar, Straus and Giroux, 2020. Capítulos 11 e 12.

08/07/21 – Henrich, Joseph. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Farrar, Straus and Giroux, 2020. Capítulos 13 e 14.

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Bibliografia básica:

Forrester, Katrina. In the Shadow of Justice: Postwar Liberalism and the Remaking of Political Philosophy. Princeton University Press, 2019.

Gilligan, Carol. In a different voice: Psychological Theory and Women’s Development. Harvard University Press, 1982.

Habermas, Jürgen. “Desenvolvimento da moral e Identidade do Eu”. In Para a reconstrução do materialismo histórico. Unesp, 2016.

______________ . Philosophical Introductions: Five Approaches to Communicative Reason. Polity Press, 2018.

Henrich, J., Heine, S., & Norenzayan, A. “The weirdest people in the world?” In Behavioral and Brain Sciences, 2010, 33(2-3), pp. 61-83.

Henrich, Joseph. The WEIRDest People in the World: How the West Became Psychologically Peculiar and Particularly Prosperous. Farrar, Straus and Giroux, 2020.

Kohlberg, Lawrence. “The Claim to Moral Adequacy of a Highest Stage of Moral Judgment”. In Weithman, Paul J. (org). Moral Psychology and Community. The Philosophy of Rawls. A Collection of Essays. Vol. 4. Garland Publishing, 1999.

Rawls, John. Justiça como equidade: Uma reformulação. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

__________. Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2016.

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[1] Rawls, John. A Theory of Justice. Harvard Belknap Press, 1971.

[2] Rawls, John. Uma teoria da justiça. Martins Fontes, 2016, p. 570.

[3] Habermas, Jürgen. Philosophical Introductions: Five Approaches to Communicative Reason. Polity Press, 2018, p. 47 [pdf].

[4] Idem.

[5] Habermas, Jürgen. “3 – Discourse Ethics – I. Moral Theory”. In Philosophical Introductions: Five Approaches to Communicative Reason. Polity Press, 2018.

[6] Gilligan, Carol. In a Different Voice: Psychological Theory and Women’s Development. Harvard University Press, 1982 (2003), p. 18.

[7] Cf. Forrester, Katrina. In the Shadow of Justice: Postwar Liberalism and the Remaking of Political Philosophy. Princeton University Press, 2019.