Lattes

July 11th, 2009

Na sequência do rolo com o currículo Lattes da Dilma Vana Rousseff, a Folha de S. Paulo deste sábado, na seção Tendências/Debates, pergunta: “É preciso haver maior controle oficial sobre a base de currículos da Plataforma Lattes?

ROGERIO MENEGHINI, coordenador científico do programa SciELO de revistas científicas brasileiras, professor titular aposentado do Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e ex-presidente da primeira Comissão de Avaliação da USP (1993-1997), diz que NÃO (só para a$$inante$).

ROBERTO ROMANO, filósofo e professor titular de ética e filosofia política na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), autor de, entre outras obras, “Moral e Ciência - A Monstruosidade no Século XVIII”, diz que SIM (só para a$$inante$).

Não precisa ler os artigos. Eu DECRETO para você o vencedor. É Rogerio Meneghini:

A Plataforma Lattes tem hoje mais de 1 milhão de currículos e, diariamente, são feitas dez mil atualizações. Pode-se imaginar o que a cultura brasileira de deixar ao Estado a responsabilidade de verificar a exatidão dos dados significaria em inchamento da máquina burocrática do CNPq e a decorrente subtração de recursos para a pesquisa.”

Ou seja, não vai ter controle oficial coisa nenhuma. Encerrado o debate. Passar bem.

U$P = $enado

June 17th, 2009

[Sarney] tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.” - Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Folha Online)

Lula, como se sabe, reflete a alma do Braziu. Sarney, de fato, não é uma pessoa comum. Ele tem um algo a mais que o diferencia das tais “pessoas comuns”. Por isso ele é o que é e faz o que faz. Ele não é uma pessoa comum e, portanto, pode.

Faz todo o sentido e, por isso mesmo, explica muito sobre o Braziu.

Assim como também faz todo o sentido que o evento responsável por despertar do sono profundo alguns renomados intelectuais uspianos tenha sido o quebra-pau entre sindicalistas e estudantes contra a PM no campus da USP. Faz sentido porque mostra onde estão os interesses e as preocupações desses intelectuais uspianos e mostra, assim, que talvez o debate intelectual no Braziu realmente não passe de uma discussão de boteco sobre quem começou alguma briga, quem apanhou e quem bateu mais.

Um excelente texto sobre o caso da USP foi escrito pelo Claudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil. Em certo momento, ele aponta o que, para mim, é o mais grotesco nesse debate que conseguiu tirar do fundo do porão a Marilena Chaui e o Antônio Candido:

Alguns daqueles que se manifestaram publicamente sobre o ocorrido para reclamar — com razão — da violência policial foram além, reclamando da própria presença da polícia. Para eles, a Universidade deveria permanecer out of bounds para a polícia. Qualquer assunto relativo à USP deve, em sua visão, ser resolvido intra-muros. Esses oráculos do esquerdismo infanto-juvenil da USP demonstram, com isso, o tamanho de seu elitismo. A Universidade, para eles, é deles..”

Não sei, sinceramente, de que adianta tanta enrolação teórica para se chegar a afirmar coisas como “a universidade não é caso de polícia“, e que “cabe a nós mostrar a eles que a história da USP é outra.”

Bastava ter readaptado o relativismo do filósofo Lula:

A USP, com seus professores, funcionários e alunos, tem história no Brasil suficiente para que não seja tratada como se fosse uma instituição comum.

Cuba al Descubierto

June 15th, 2009

A notícia abaixo me fez lembrar do Slavoj Zizek:

as discrepâncias entre o que “você” realmente é e o que “você” aparenta ser no espaço digital podem resultar em violência homicida.”

Abaixo o móóóónstro capitali$ta homicida URG!

Blogueiro se faz de mulher e dá trote em filho de Fidel Castro

Por oito meses, ‘Claudia’ trocou mensagens com Antonio Castro para ‘expor estilo de vida opulento’ de família de Fidel.

Da BBC

Um blogueiro cubano exilado em Miami criou uma personagem fictícia e trocou e-mails com o filho do líder cubano Fidel Castro, furando o cordão de segurança em torno da família presidencial de Cuba.

Luis Dominguez afirma ter usado a personagem para iniciar uma relação online com Antonio, de 40 anos de idade. Os dois trocaram fotografias e chegaram a planejar encontros em Varadero, em que Antonio serviria de “guia” para Claudia, segundo contou o blogueiro.

(…)

Há décadas, a família Castro mantém um forte cordão de segurança a sua volta, em grande parte por conta das repetidas tentativas de remover o governo comunista da ilha.


Outro mOndo possível = evite muito

Dominguez usou a suposta fraqueza de Antonio por jovens mulheres e esportes para se aproximar dele e criou Claudia, uma jornalista colombiana de 27 anos, especializada em esportes.

(…)

Mas Dominguez afirma que ao expor o que descreve como estilo de vida opulento da família Castro num país comunista, ele já cumpriu seus objetivos.

A troca de mensagens e algumas fotografias enviadas por Antonio foram publicadas no blog de Dominguez, Cuba al Descubierto. O blogueiro se recusou a pedir desculpas pela invasão de privacidade.”

Descomunal inteligência e riqueza invulgar de pensamento

June 9th, 2009

Recomendo fortemente a leitura da coluna de hoje do maior intelectual do estado mais intelectualizado e politizado do Brasil:

“Terça-feira, 09 de junho de 2009
Mangabeira Unger
Postado por Sant’Ana às 06h45

Há muito tempo que eu não me apaixonava por um homem. (…) Não há no Brasil quem detenha mais conhecimento do que ele. Sua visão sobre todas as questões humanas e planetárias é tão genial, que não há dúvida de que ele está pronto para ser um estadista de repercussão fenomenal. (…) Eu me apaixono por homens que são dotados de descomunal inteligência e riqueza invulgar de pensamento. Este é o único brasileiro que conheço nessa condição.”

Mangabeira Unger, como todos nós estamos exaustos de saber pelo menos desde janeiro de 2006, é amigo de longa data de Daniel Dantas e atuou, entre 2002 e 2005, como consultor da Brasil Telecom (recebeu US$ 1,176 milhão) e, ao mesmo tempo, como trustee do grupo Opportunity - de Dantas e, na época, acionário da Brasil Telecom.

O resto da história você também está cansado de saber: Mangabeira, depois de ter chamado o governo petista de “o mais corrupto de nossa história nacional“ e acusado Lula de ser “avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância” e “inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou”, em artigo na Folha de S. Paulo do dia 15 de novembro de 2005,  assumiu a SEALOPRA (Secretaria Especial de Ações a Longo Prazo - nome que, infelizmente, não foi adotado e se transformou na Secretaria de Assuntos Estratégicos).

Em janeiro de 2008, por exemplo, Mangabeira aplicou sua “descomunal inteligência e riqueza invulgar de pensamento” ao propor, em Manaus, juntamente com uma comitiva de 38 a$$e$$ore$, solucionar o problema da seca nordestina construindo um aqueduto da Amazônia até o Nordeste. Dois dias depois, Mangabeira e seus 38 a$$e$$ore$ foram informados de que “só em Manaus, onde vivem mais de 1,8 milhão de habitantes, quase 700 mil não dispõem de água encanada em suas casas” e que, portanto, o mangabeiroduto da “ação revolucionária em direção a uma obra libertadora” deveria ser construído em outro lugar.

Como também já estamos exaustos de saber, Mangabeira Unger é o filósofo brasileiro mais citado no exterior, em grande parte devido às referências feitas por Jürgen Habermas. O filósofo alemão, criador da chamada Ética do Discurso, é autor de uma obra vasta e complexa, que inclui, entre outros, os livros Consciência moral e agir comunicativo (1983), O discurso filosófico da modernidade (1985), Pensamento pós-metafísico (1988), Comentários à ética do discurso (1991), Direito e democracia (1992), A inclusão do outro (1996), Verdade e justificação (1999), O futuro da natureza humana (2001), Fé e saber (2002) e Entre naturalismo e religião (2005).

Um exemplo prático de uma sugestão de Habermas - que, da mesma forma que Mangabeira, é frequentemente descrito como possuidor de ”descomunal inteligência e riqueza invulgar de pensamento” - pôde ser conferido no artigo que o filósofo alemão publicou no jornal Süddeutsche Zeitung, reproduzido pelo Caderno Mais! da Folha de S. Paulo em 27 de maio de 2007:

Ouvintes e espectadores não são apenas consumidores mas também cidadãos com direito à participação cultural, à observação da vida política e à voz na formação de opinião. Com base nesses direitos, não é o caso de deixar programas voltados a tais necessidades fundamentais da população à mercê da conveniência publicitária ou do apoio de patrocinadores. (…) A ideia de uma reserva pública voltada para a mídia eletrônica pode ser interessante. (…) Quando se trata de gás, eletricidade ou água, o Estado tem a obrigação de prover as necessidades energéticas da população. Por que não seria igualmente obrigado a prover essa outra espécie de “energia”, sem a qual o próprio Estado democrático pode acabar avariado? O Estado não comete nenhuma “falha sistêmica” quando intervém em casos específicos para tentar preservar esse bem público que é a imprensa de qualidade.

Resumidamente, é a defesa da Tê Vê Braziu em versão alemã - uma espécie de Tê Vê Chuchute - já que é necessário que o Papai E$tado intervenha para evitar que as massas, oprimidas e ignorantes, sejam influenciadas pela mídia má, feia, bobona, neoliberal, mercadológica, golpista, neocon e imperialista.

Na mesma edição do Caderno Mais!, o crítico literário Marius Meller, em 3 frases, implode a obra completa de Habermas:”Em questões de moral, sr. Habermas, o ator principal é o indivíduo, não o sistema. Já nos anos 1980, o sr. profetizou a queda da democracia por conta da televisão privada, e estava errado. Eu sinceramente espero que o esquema gnóstico de bem e mal que o sr. tão frivolamente aplica ao liberalismo e ao neoliberalismo não se torne uma ideologia que um dia venha a invocá-lo como sua fonte“.

Acho que Meller pegou leve demais.

Paulo Sant’Ana admira Mangabeira Unger, o filósofo brasileiro mais citado no mundo porque Habermas,  defensor de subsídios estatais para garantir a qualidade da imprensa (o que ele entende por qualidade, bem entendido), achou que sua obra merecia ser comentada.

É impressão minha ou o universo faz cada vez mais $entido?

Controlar qualquer coisa? Evite.

June 3rd, 2009

Amanhã, 04/06/09, o Protesto na Praça da Paz Celestial (Tian’anmen), ocorrido na China em 1989, completa 20 anos.

Como se sabe, ontem o desgoverno chinês deu chilique e saiu bloqueando tudo que encontrou pela frente na internet: Twitter, Hotmail, Bing, YouTube, MSN, Flickr etc.

O objetivo era evitar ao máximo todas as formas de possíveis protestos. Como você também já está cansado de saber, poucas coisas neste mundo são mais imbecis do que tentar controlar a internet. Imediamente depois do bloqueio, milhares de chineses foram para os espaços que (ainda) não estavam bloqueados (blogs e fóruns de discussão) para reclamar das medidas.

Totalmente desgovernado, o desgoverno chinês conseguiu despertar ainda mais a fúria dos internautas do país e fez da medida o assunto principal em praticamente todos os blogs sobre tecnologia e internet ao redor do mundo. Conseguiu, portanto, justamente o oposto do que queria: fez com que não só os internautas chineses, mas o mundo inteiro, relembrassem o acontecimento de 1989.

Mas não foi só isso.  O desgoverno também conseguiu se auto-ridicularizar. Como postou, por exemplo, o blog do Seesmic, o acesso ao site do Twitter foi efetivamente bloqueado, mas esqueceram de bloquear aplicativos de postagem como o Seesmic Desktop ou o twhirl (que, aliás, eu uso e recomendo). Resultado: o bloqueio não fez diferença alguma, ainda mais porque quem ainda postava pelo site logo ficou sabendo que era possível postar com o uso de aplicativos. Derrota moral sem limites.

No meio disso tudo, uma matéria da BBC Brasil chamou minha atenção: “Vinte anos depois de massacre, juventude chinesa quer sucesso e dinheiro“. Vale a pena ler a matéria inteira, mas ela pode ser resumida pelo seguinte trecho:

“De acordo com o dissidente [Han Dongfang, um dos líderes do movimento de 89, atualmente exilado em Hong Kong, de onde advoga pelos direitos dos trabalhadores chineses], as formas de construir uma China democrática não se resumem aos protestos de 1989 e atualmente o país está caminhando em direção à abertura porque a criação de prosperidade traz inevitavelmente o questionamento e o desejo por liberdade.”

A opinião de Dongfang é interessante porque vai além da situação chinesa. Para o desespero daqueles prejudicados mentalmente por alguma ideologia, ninguém mais está disposto a fazer revolução.  É um fato e não há o que fazer para mudar isso. A maioria das pessoas, na maior parte do mundo, da mesma forma que os chineses, está muito mais interessada em “sucesso e dinheiro” do que em política.

Às vezes é preciso fazer um esforço para perceber que a ruína da ditadura chinesa  - e o mesmo vale para qualquer tipo de tentativa de controle em qualquer lugar do mundo - ocorrerá internamente não porque os chineses que estavam organizando protestos por MSN tiveram sua comunicação interrompida, mas porque milhares (e população para isso não falta) de pessoas que não querem nem saber de política ficaram furiosas porque suas conversas, interesses e negócios particulares foram prejudicados por esse bloqueio.

Tenéti = mon$tro

May 22nd, 2009

Chupado lá do Tiago Dória.  É uma campanha da agência alemã Ogilvy para a International Society for Human Rights (ISHR):

Official White House photograph

May 15th, 2009

Reforma política demencial

May 7th, 2009

A Folha de S. Paulo tem se dedicado, nos últimos dias, a meter o pau na nova proposta de reforma política que está sendo articulada por nossos nobre$ deputado$. Espero que mais veículos da mídia má, feia, bobona e imperialista entrem na campanha contra essa demência fora de controle que, se aprovada, instituirá o financiamento público de campanha e o voto em lista fechada. 

O projeto tem o apoio do governo e da cúpula de cinco partidos: Pê Tê, PMDB, DEM[O], PP$ e PC do B. Parcela significativa dos tucanoides, incluindo o Jo$é $erra, também está no mesmo barco. Neste caso, o mais surpreendente não é a loucurada da coisa em si, afinal de contas, loucurada e roubalheira por baixo dos panos é o que não falta. O surpreendente é que tudo esteja sendo feito às claras, sem nenhum constrangimento.

O projeto - sintetizado pelo deputado federal gauchoide Ibsen Pinheiro (PMDB) a pedido dos deputados Michel Temer, presidente da Câmara, e Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB - prevê a criação de um fundo com grana pública para financiar os dois turnos das campanhas eleitorais. O valor por eleitor seria de R$ 7,00  no primeiro turno e R$ 2,00 no segundo. Considerando o número de eleitores de dezembro de 2008, teríamos precisamente R$ 1.174.097.656,00 de gasto total com os dois turnos (R$ 913.197.656 para o primeiro e R$ 260,9 milhões para o segundo).

A ideia é demente por várias razões, mas há duas principais. A primeira é factual: absolutamente nada no projeto - nem em lugar algum no universo - impede os famosos “recursos não contabilizados” [® Delúbio Soares], também conhecido como banditismo fora de controle caixa dois. As malas de dinheiro vão parar de se materializar nas sedes partidárias porque a grana oficial da campanha passou a vir do Pai E$tado? Não.

A segunda razão é de compreensão mais difícil caso você tenha uma mente Pê Tê. Eleição - teoricamente, é bom deixar claro - é representação e compromisso, e essas duas coisas não funcionam desvinculadas de dinheiro privado. Não entendeu? É simples: quando você paga por algo, você quer o melhor e se sente realmente ofendido quando não recebe aquilo pelo qual pagou. Quando algo é oferecido “de graça” (ou pago com dinheiro público, o que provoca a mesma sensação), bom… é o Braziu que conhecemos: nada funciona, com raras exceções. Ter que se matar para conseguir dinheiro privado para as campanhas implica ter que convencer pessoas, empresas, organizações e setores sociais de que se tem o melhor projeto para a cidade, estado ou país. Com financiamento público, a grana estará garantida e essa importante fase simplesmente desaparece.

O argumento esquerdoide de que o financiamento privado favoreceria os ricos, que podem fazer grandes doações, não tem nada a ver com o fundamento das doações privadas, mas com o eterno Problema Braziu. Como tem insistido o Fernando Rodrigues, Lula, nas eleições de 2006,  foi financiado por 1.319 doadores, enquanto Obama recebeu grana de 3,5 milhões de doadores, sendo que 2,5 milhões contribuíram com menos de US$ 200. A doação, obviamente, cria um vínculo entre o eleitor e o eleito, abrindo espaço para a cobrança durante o mandato. Preocupado com o poder de influência das grandes empresas doadoras? Tente entender que a melhor saída é a transparência e a vigilância. Aliás, é justamente a transparência que assusta e que faz com que praticamente todos os partidos sejam contra a proibição das chamadas “doações ocultas”, feitas para os partidos, que depois distribuem a grana internamente entre os candidatos, sabe-se lá segundo quais critérios…

Transparência também é a questão central da segunda proposta demente, a do voto em lista fechada. O eleitor não votaria mais em candidatos, mas nos partidos, que elaborariam, internamente, uma lista de nobre$ excelência$. Primeiro problema, mais evidente: é a institucionalização da falcatrua interna dentro dos partidos (como se a atual já não bastasse…) e o fim da possibilidade de discordância dentro das legendas (”Ou você vota no projeto de acordo com a determinação do partido, ou está fora da próxima lista eleitoral.“) Segundo problema: estamos em 2009, o Muro de Berlim caiu há 20 anos, a e$querda assumiu o poder em praticamente todos os regimes democráticos e roubou tanto quanto a direita e os partidos políticos acabaram. É triste, é deprimente, é lamentável, dá vontade de chorar, de arrancar os cabelos, de escrever tratados de filo$ofia política tentando salvar o universo, mas não há o que fazer. De vez em quando, é bom encarar os fatos. Vivemos em sociedades individualistas que lidam muito mal com qualquer conceito de coletividade. Portanto, fazer uma lei que tenta restituir na marra uma ideia que não existe mais é pedir para dar tudo errado. E dará, não tenha dúvidas. 

Como as alterações não implicam em mudança constitucional, já que será mantido o princípio do voto proporcional, essa demência só precisa de maioria simples para ser aprovada. Se depender das excelência$, tudo estará feito até outubro.

E daí? Daí nada. Zzzz… ronc… zzz.

Antonio Cicero

May 3rd, 2009

Em plena semana Ahmadinejad e aproveitando que  os órfãos do esquerdismo falido cada vez mais apelam para o que eu chamo de filosofia do desespero, vale a pena ler a coluna do Antonio Cicero na Folha de S. Paulo de sábado. 

A íntegra pode ser encontrada no próprio blog do Cicero.  

Destaque para o trecho em que, de forma simples e clara, ele resume o principal argumento contra um tipo bastante conhecido de relativismo cultural que circula feliz e saltitante pela acadimia du Braziu (grifo meu):

“A suposição de que há diferentes “regimes de verdade” irredutíveis uns aos outros e de que o nosso regime de verdade, sendo apenas um entre outros, não tem privilégio nenhum quanto aos demais conduz a impasses teóricos jamais adequadamente enfrentados por Foucault. Por exemplo, se não temos o direito de julgar as verdades dos iranianos porque eles têm um diferente regime de verdade, então não temos sequer o direito de afirmar que eles têm um diferente regime de verdade: principalmente se levarmos em conta que, a partir do seu próprio regime espiritual de verdade - segundo o qual o Islã é a verdade absoluta -, os iranianos jamais reconheceriam a “verdade” de que o nosso regime de verdade seja diferente do deles: ou mesmo de que existam diferentes regimes de verdade.”

Debates Pertinentes: para Entender os Intérpretes da Sociedade

May 1st, 2009

Divulgando evento que ocorrerá no Instituto Goethe Porto Alegre daqui a duas semanas:

Ciclo de Palestras Debates Pertinentes

11 a 14 de maio de 2009
19:00 às 22:00 horas
Goethe-Institut Porto Alegre

Entrada franca

+55 51 21187802

Inscrições:
info@portoalegre.goethe.org

Um ciclo de palestras abordando temas da atualidade social, política e econômica. Uma promoção conjunta do Departamento de Ciências Sociais e PPG em Ciências Sociais, FFCH/PUCRS, Instituto Goethe e AEBA-RS, com coordenação do Prof.Dr. Hermílio Santos.

Programa

11 de maio
Segunda-feira

Relevância e tipificação em Alfred Schütz
Prof. Dr. Hermílio Santos

Norbert Elias e o processo civilizador
Prof. Dr. Ricardo Mariano 

Teoria sistêmica de Niklas Luhmann
Prof. Dr. Léo Peixoto Rodrigues

12 de maio
Terça-feira

Marcel Mauss e os sentidos do dom
Profa. Dra. Lúcia Müller 

O individualismo na obra de Louis Dumont
Prof. Dr. Airton Jungblut

13 de maio
Quarta-feira

Liberdade e igualdade em Alexis de Tocqueville
Profa. Dra. Marcia Ribeiro Dias 

Raymond Aron, sociólogo e internacionalista
Profa. Dra. Maria Izabel Mallmann

14 de maio
Quinta-feira

Axel Honneth e a teoria da justiça
Prof. Dr. Emil Sobottka 

Françoise Héritier e o tema da violência
Profa. Dra. Fernanda Bittencourt Ribeiro 

Pierre Bourdieu: a força do Direito e a violência das formas jurídicas
Prof. Dr. Rodrigo Azevedo”

Mercado imobiliário bovino

April 30th, 2009

O gritedo nos grandes portais sobre o último dia para fazer a entrega da declaração de imposto de renda me fez lembrar de uma historinha que presenciei há alguns dias.

Um corretor de uma das maiores imobiliárias de Porto Alegre liga para o comprador de um imóvel. A proposta: a venda da espelunca seria fechada em R$ 85.000,00 e o pagamento seria feito à vista (o que já havia sido previamente combinado). O detalhe (que ainda não tinha sido mencionado) é que na certidão pública de imóveis a venda seria registrada por R$ 60.000,00. Como fazer a mágica? Do jeito óbvio, é claro: R$ 60.000,00 seriam pagos em cheque administrativo do comprador para o vendedor, tudo bonitinho. Os R$ 25.000,00 restantes seriam em CASH, BUFUNFA, POR FORA. 

Mas não foi esse fato isolado que me surpreendeu, afinal de contas já está mais do que na hora de perceber que o banditismo é uma característica amplamente difundida aqui nos pastos bovinos deste querido Rio Grande. O que me surpreendeu, depois de ficar mui interessado pelo assunto e sair conversando por aí, foi descobrir que a prática é generalizada no mercado imobiliário gauchóide, inclusive entre as grandes imobiliárias. De casebre a man$ão, tem bastante gente circulando com malas e malas de grana viva por aí todos os dias. 

Mas por que diabos estou contando isso nesta véspera de feriadão do dia do trabaiadô?

Sei lá, ora. Deve ser porque gosto de registrar certas coisas.

Esperando Foucault, ainda - Marshall Sahlins

April 28th, 2009

Entediado com a atual leitura da privada? Uma dica: Esperando Foucault, ainda (Cosac Naify, 2004, R$ 33,00), do antropólogo americano Marshall Sahlins, professor na Universidade de Chicago. 

Trata-se, segundo o próprio livro, de um “entretenimento pós-prandial oferecido por Marshall Sahlins à IV Conferência Decenal da Associação de Antropólogos Sociais da Commonwealth, Oxford, julho de 1993 - agora em sua 4a edição, ampliada“. São mini-capítulos nos quais Sahlins arruina tudo: da French Theory, passando pelas novas tendências da antropologia, até chegar no meio acadêmico em geral. Lá vão dois dos mini-capítulos:

cursos para os nosso tempos

Um colega da Universidade de Chicago, especialista em cultura material, ofereceu um curso sobre o “blues de Chicago”, sob o título geral de “Estudo intensivo de uma cultura”, uma fórmula guarda-chuva usada para cursos de graduação dedicados à apresentação  de pesquisas etnográficas recentes. Pensando que, se o blues de Chicago é uma cultura, o futebol americano de Michigan também poderia ser uma outra - na qual tenho experiência de pesquisa intensiva -, vi-me provocado a inserir a seguinte nota no quadro de avisos do departamento:

ESTUDO INTENSIVO DE UMA CULTURA: O FUTEBOL DE MICHIGAN
Antropologia 21225
Sábados, de 13:30 às 16:30
Crédito extra pelo dia de ano novo
Professor: Marshall Sahlins
Nível: exclusivamente para estudantes de graduação; limite de 10 alunos

Devido à impossibilidade da Presença pura, o material do curso consistirá em transmissões de vídeo - consideradas, entretanto, em sua textualidade. Não há pretensão alguma de enunciar uma narrativa-mestra ou totalizada sobre o futebol de Michigan. Quer-se apenas tematizar certas aporias da Power-I formation - ou seja, da subjetividade pós-moderna. Os tópicos abordados incluirão: trash-talking ou discursos contestados; tight ends, spread formations e outra posições de sujeito; pós Gerry-Fordismo ou sujeito de-centrado; pós-desconstrução e outras celebrações de vitória; e o essencialismo dos capacetes.¹

Mas não foi essa a graça. O engraçado foi a quantidade de alunos, inclusive pós-graduandos, que levou a coisa a sério e acreditou realmente existir tal curso, enviando-me mensagens de e-mail solicitando a inscrição. Um deles perguntou se eu poderia aceitá-lo como assistente. Quando o período acabou, outros quatro vieram perguntar como tinha sido o curso. Assustador!

¹ Power-I e spread formations são formações ofensivas que dispõem os jogadores em linha, no primeiro caso, paralela, e, no segundo, perpendicular às laterais do campo. Tight end é a posição lateral e trash talks são provocações verbais entre os jogadores. O crédito extra no ano novo refere-se ao fato de ser este o dia da final do campeonato de futebol universitário americano.” (p. 30-32)

***

relevância

Não posso falar da Grã-Bretanha, mas nos Estados Unidos, muitos estudantes de antropologia não têm o menor interesse em outros tempos e lugares. Eles dizem que deveríamos estudos nossos próprios problemas, qualquer outra etnografia sendo, de qualquer modo, impossível, já que não passaria de uma “construção do outro” de nossa parte.
     Assim, se conseguirem o que querem e isso se converter em princípio de pesquisa antropológica, daqui a cinquenta anos ninguém vai prestar a menor atenção ao trabalho que eles vêm fazendo agora. Bem, talvez eles tenham sacado alguma coisa.” (p.34)

Sociedade de controle e a filo$ofia da macaquice

April 22nd, 2009

Trecho de um dos editoriais da Folha de S. Paulo de ontem:

Não faltam estudos apontando que o ensino médio se encontra numa encruzilhada no Brasil. Mais um acaba de surgir, realizado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas. Registra que um em cada cinco jovens entre 15 e 17 anos - a idade-alvo do antigo segundo grau - abandona a escola na Grande São Paulo. É o maior índice entre as seis regiões metropolitanas avaliadas.”

Matéria publicada na Folha de S. Paulo de hoje:

Professor sem preparo trava uso de computador em escola - A implantação de laboratórios de informática em todas as escolas públicas do país até o fim de 2010, prometida pelo governo Lula, esbarra no despreparo dos professores para usar o computador e na falta de manutenção dos equipamentos e das instalações, responsabilidade de Estados e municípios. É o caso de Almenara (MG), onde os 15 computadores da escola estadual Angelina Nascimento são usados apenas por cerca de 15 horas ao mês. Motivo: os professores temem quebrar as máquinas.

Ok, tudo mundo sabe que o sistema educacional está falido e ninguém tem a menor ideia do que fazer a respeito. Mas o que pouca gente percebe é que a grande responsável pela falência completa no entendimento do que está acontecendo é a macaquice intelectual que toma conta de boa parte do meio acadêmico brasileiro. Resgatar certas ideias e autores -geralmente apóstolos do que eu chamo de filosofia do desespero - sempre parece ser a saída mais fácil para tentar encontrar alguma explicação para tudo que escapa à mínima compreensão.

O exemplo mais recente e constrangedor é um artigo intitulado “Pensar a educação depois de Foucault”, publicado na última edição da Revista Cult. A revista, como se sabe, transformou-se em um panfleto esquerdista decadente. Na capa da edição anterior, Marilena Chaui – aquela que achava que o mensalão foi uma “construção fantasmagórica da mídia” –, sorridente, toma conta de toda a capa da revista, que a considera “uma das personalidades mais admiráveis do país”. Cada um com a canalhice intelectual que lhe agrada, mas o problema neste caso é que a revista tem se dedicado há bastante tempo à questão da educação e tornou-se referência não só para 9 entre 10 estudantes de pedagogia saltitantes, como também para um certo público de estudantes do ensino médio.

O texto sobre a educação do “Dossiê Foucault” , disponível na íntegra no site da revista, é um dos sinais da lástima acadêmica nacional. Não vou nem entrar na questão do problema gigantesco que é usar Foucault para tentar entender QUALQUER COISA do mundo atual nem nas firulas interpretativas que fizeram de sua obra (sempre surgirá alguém para defender que “não foi bem isso que ele quis dizer”).

O problema, aqui, é mais primário: os argumentos do texto estão ERRADOS. Matematicamente errados, estatisticamente errados.

Vamos a eles, com grifos meus:

A passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle permite entender as mudanças pelas quais a instituição escolar vem passando desde a última década a fim de tornar-se a instância de produção do novo sujeito moral, o sujeito flexível, tolerante e supostamente autônomo, requerido pelas novas modulações do controle que gravitam entre o Estado e o mercado neoliberal. Nesse processo, tornaram-se decisivas novas tecnologias informacionais, nutricionais, educativas e físicas, as quais se destinam a ampliar as capacidades corporais e cognitivas dos indivíduos, que devem se tornar empreendedores de si mesmos.

Agora, à análise de cada um dos absurdos: 

- “Tecnologias informacionais – O segundo texto da Folha, citado acima, comprova estatisticamente e com fatos a falência completa da adoção de “tecnologias informacionais” nas escolas. Aliás, um dos grandes problemas educacionais contemporâneos é como fazer com que essa coisa defasada chamada escola consiga competir com as possibilidades praticamente infinitas abertas pelas novas tecnologias.

Conclusão: sociedade de controle através de tecnologias informacionais = não existe.

- “Tecnologias nutricionais” – Segundo o estudo Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizado pelo Ministério da Saúde e pela USP e publicado no início do mês, 43,3% da população brasileira está com o peso acima dos níveis recomendados e 13% está obesa. Esta matéria, de 2001, afirma que “a obesidade infantil aumentou cinco vezes nos últimos 20 anos no Brasil” e “já atinge cerca de 10% das crianças brasileiras”. Esta outra, de 2006, afirma que “no Brasil, 15% dos nossos jovens estão acima do peso, sendo 5% obesos; estima-se um aumento de 240% da obesidade infantil, no nosso país, nos últimos 20 anos.” Dado o estrago da situação, na semana passada, a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou uma lei que proíbe as cantinas em escolas públicas e particulares de vender alimentos com gordura trans, o inclui coxinhas, doces e refrigerantes. Mas o presidente do Sieesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo) dá a real: “A medida é eleitoreira e não adianta. Na saída da escola, as barracas vão continuar vendendo pastel.” Faliu o tal do controle para moldar o “sujeito flexível” e adaptado ao “mercado neoliberal”?

Conclusão: sociedade de controle através de tecnologias nutricionais = não existe.

- “Tecnologias educativas” – Como se vê pelo texto do editorial da Folha citado acima, “um em cada cinco jovens entre 15 e 17 anos - a idade-alvo do antigo segundo grau - abandona a escola na Grande São Paulo”. Se isso não é sinal de falência das “tecnologias educativas”, eu não sei o que é.

Conclusão: sociedade de controle através de tecnologias educativas = não existe.

- “Tecnologias físicas” – Reler os dados acima no item “tecnologias nutricionais”. Depois, refletir sobre a questão da obesidade, sobre as aulas de educação física que você teve na escola e sobre os atletas brasileiros e a quantidade de medalhas que o país ganha em olimpíadas.

Conclusão: sociedade de controle através de tecnologias físicas = não existe.

Analisar o mundo de diversos pontos de vista é sempre recomendável. O problema é quando o ponto de vista adotado não tem relação alguma com nada de nada que se passa no mundo.

Arruinando Peter $inger

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Táin Bó Cúailnge

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