Talvez a maior diferença entre a Banana e o Baguette em termos políticos seja a capacidade que, aqui, os governos (nacional, regional ou municipal) têm de efetivamente adotar medidas com algum sentido e que têm alguma implicação prática. Com maioria no legislativo, Sarkozy aproveitou ao máximo a situação confortável de início de mandato para aprovar projetos de todas as áreas de seu governo.
Como uma amiga francesa – que está longe de ser sarkozista – me disse, o Pequeno Líder venceu as eleições porque os franceses simplesmente não agüentavam mais o marasmo dos 14 anos de presidência socialista de François Mitterrand (1981-1995) mais os 12 anos de Jacques Chirac (1995-2007). A diferença entre uma Ségolène Royal pilha franca e sem apoio nenhum dentro do próprio partido e um pequeno Sarkô totalmente elétrico e com propostas para tudo foi decisiva para a escolha dos franceses.
Não é à toa, portanto, que o início do mandato de Sarkô esteja sendo avaliado não como se faz na Banana (“O que você acha do Fulaninho?“) mas através da aprovação ou rejeição dos principais projetos que o governo colocou em prática. Segundo uma pesquisa do instituto Ifop, a maioria dos franceses aprova as medidas e o estilo de governar do Pequeno Sarkô:
- 87% (contra 12%) aprovam a lei que torna dedutíveis do imposto de renda os juros pagos na compra de imóveis. Imóveis na França são absurdamente caros e Sarkô prometeu adotar várias medidas para tornar o Baguette um “país de proprietários”.
- 84% (contra 15%) são a favor do endurecimento das penas para menores reincidentes.
- 80% (contra 19%) são a favor da ação do governo francês para liberar as tais enfermeiras búlgaras que estavam presas na Líbia.
- 72% (contra 27%) aprovam a adoção da lei de serviço mínimo em caso de greve dos transportes públicos e outros serviços essenciais. Com maioria no legislativo, Sarkô passou por cima dos cumpanhêru dos sindicatos, a praga francesa, e instaurou medidas como a obrigatoriedade de anunciar qualquer greve com 48hs de antecedência, obrigatoriedade de deslocar funcionários de outros setores das empresas para suprir os grevistas e – o golpe de morte nos cumpanhêru – obrigatoriedade de votação secreta de todos os funcionários pela continuação ou interrupção da greve 8 dias após o início do muvimentu. Medidas meio cagadas, na verdade (como assim OITO dias? Tinha que ser 2), mas já é algma coisa.
- 66% (contra 33%) aprovam a supressão de taxas sobre as horas extras. Leia-se por “horas extras”: horas trabalhadas além das 35 horas semanais, a aberração francesa. A medida – essa também cagada – tem por objetivo diminuir um pouco que seja os danos causados pela favela mental socialista que aprovou as 35hs durante o governo do primeiro-ministro Lionel Jospin.
- 61% (contra 35%) aprovam as medidas do governo francês para negociar um mini-tratado constitucional europeu, a única coisa que restou a fazer. Como todo mundo sabe, em 2005 a França votou contra a adoção da Constituição Européia. A derrota do “SIM” é uma aula sobre o mondo para o pessoal que milita contra a mídia má, feia e bobona. Apoiada por TODA a mídia má francesa e européia e pela maioria dos partidos da direita e de esquerda, a Constituição foi rejeitada pelos franceses. Como o “NÃO” brasileiro ao Estatuto do Desarmamento, os analistas pé-de-chinelo de plantão não consiguiram explicar como foi possível o povão, sempre passivo, se revoltar contra a mídia má e manipuladora.
- 58% (contra 34%) são a favor do projeto do governo que estabelece a autonomia das universidades. Todas as universidades francesas são públicas (é proibido por lei o ensino superior privado) e nenhuma é autônoma. Tentando fazer alguma coisa para reverter a catástrofe do ensino superior francês, Sarkô propôs a autonomia. Veio a choradeira. Foi aí que vi que poucas coisas podem ser tão sintomáticas da demência ideológica esquerdista que ainda insiste em reinar no universo. Lembra da greve da USP, com os cabeludos desocupados chorando pela autonomia universitária? Pois aqui no Baguette, berço de inspiração do esquerdismo mundial, a autonomia universitária é vista como a coisa mais de direta que pode existir. Autonomia universitária, para os comunas daqui, significa se igualar às universidades americanas e instaurar essa coisa do DEMO que é a concorrência, o auto-gerenciamento e a busca por resultados. Choraram tanto que o governo cedeu e a autonomia passou a ser opcional. Os cumpanhêru de cada universidade é que vão decidir se querem ou não sair da barra da saia da mãe.
- A única derrota do governo foi em relação à medida de não preencher 22 mil cargos públicos que ficarão vagos com a aposentadoria de funcionários. 61% (contra 38%) dos franceses são contrários à medida. André Santini, Secretário de Estado para a Função Pública afirmou hoje que o governo está se lixando para a pesquisa e que é uma verdadeira aberração 24% dos postos de trabalho do país serem ocupados por funcionários públicos. Ainda sobre trabalho, de acordo com uma pesquisa do instituto CSA, 63% dos franceses querem continuar trabalhando depois dos 65. A lei, na maioria dos casos, obriga a aposentadoria com essa idade. Ficam de fora trabalhores das chamadas “profissões de risco”, alguns dos quais são obrigados a se aposentar com 50 anos. Passar a exercer outra função nas empresas, aproveitando a experiência para treinar novos funcionários, nem pensar.