Uma das indicações de leitura da minha orientadora francesa, alguns meses antes de vir aqui para Paris, foi um autor chamado Charles Larmore, professor de Filosofia na Universidade de Chicago e que já passou aqui pela École Normale Supérieure. O único livro dele que encontrei no Brasil foi o Patterns of Moral Complexity (Cambridge University Press, 1987). A leitura foi excelente e me ajudou a esclarecer vários pontos ainda não muito elaborados para a minha futura tese.
Assim que cheguei aqui comprei um pequeno livro chamado “Débat sur l’éthique” (Paris: Grasset, 2004). É um debate entre o Larmore e o Alain Renaut, professor da Sorbonne. Só resta querer chorar no cantinho quando se compara o nível dos debates e discussões filosóficos aqui na França com o que existe no Brasil. E não porque sejamos subdesenvolvidos, mas simplesmente porque o ranço acadêmico e o jogo de egos não permitem sair da mediocridade. Todo mundo quer passar por cima de todo mundo e, portanto, não há diálogo.
Comecei a ler mais um livro do Larmore hoje, o Les pratiques du moi. Já no início, ele explica a razão de não seguir nenhum dos chamados “métodos filosóficos” e joga um balde de água fria no delírio filosófico:
“Os métodos especiais em filosofia são, a meu ver, sempre inspirados pela esperança de chegar finalmente à certeza e pela tentativa de imunizar a reflexão filosófica contra qualquer desmentido eventual da experiência. Essa esperança não passa de um sonho fútil, e é preciso descartar esses métodos, assim como tantos outros artifícios, para ver o que uma filosofia contém de essencial. Na realidade, a filosofia deve proceder da mesma forma que as ciências empíricas, seguindo o bom senso comum, ou seja, por tentativas, por aquilo que se chama em inglês de trail-and-error. É preciso começar com um problema, não com um suposto método. (Além disso, a única definição satisfatória de filosofia é uma lista de problemas que a história dessa disciplina – repleta de desacordos de toda espécie e de reviravoltas contínuas – nos legou, por razões diversas, como problemas “filosóficos”.) Depois, uma vez o problema identificado, o filósofo é obrigado a procurar, como em qualquer tipo de questionamento, a melhor solução possível, ou seja, ele deve encontrar a solução que melhor está de acordo com o que já se sabe sobre o assunto em questão”. (Larmore, Charles. Les pratiques du moi. Paris: PUF, 2004. p. 11-12).