Tive que reler duas vezes seguidas o artigo (para assinantes, mas coloquei na íntegra abaixo) do Slavoj Zizek no Caderno Mais! da Folha de S. Paulo de ontem para me convencer que ele realmente escreveu o que escreveu.
Zizek não anda falando muita coisa que preste. Sempre começo a ler seus artigos na Folha, mas geralmente paro depois de algumas linhas para não morrer de tédio com toda a irrelevância.
Mas esse texto sobre Internet passou dos limites. É impressionante como filósofos são os maiores violentadores da regra de ouro da própria filosofia: não falar sobre o que não se sabe. Dizer besteira, portanto, é uma das manias prediletas dos filósofos. Outra é a de ser catastrofista. Zizek escreve sobre Internet como se estivesse em 1990. É a mesma história de sempre: televisão ia acabar com o rádio, Internet ia acabar com os livros, tudo ia acabar em 2000, os seres humanos seriam mortos pelas máquinas e pelos computadores.
Zizek recorre a Leibniz (1646-1716) para elaborar sua teoria lunática:
“Será que o típico internauta atual, sentado sozinho diante da tela de seu computador, não representa mais e mais uma mônada sem janelas diretas para a realidade, envolvido apenas com simulacros virtuais, e no entanto mais e mais imerso na rede mundial, e se comunicando de maneira sincrônica com todo o planeta?”
Depois o texto segue nessa mesma direção: Internet é um perigo porque são milhares de pessoas, isoladas na frente das máquinas demoníacas, falando com outras pessoas que, como elas, na verdade, são “simulacros virtuais”. É extremamente engraçado perceber quando alguém é um total ignorante em qualquer coisa relacionada a computadores e internet. Zizek é a versão filosófica do senador Eduardo Azeredo, o que queria identificar e controlar o acesso de cada internauta brasileiro. Zizek é a versão filosófica do juiz Ênio Santarelli Zuliani, que mandou o Youtube retirar do ar o vídeo da Cicarelli.
E o delírio continua:
“A realidade virtual simplesmente generaliza esse procedimento: cria uma realidade privada de substância. Da mesma maneira que o café descafeinado tem cheiro e gosto semelhantes aos do café sem ser café, minha persona na rede, o “você” que vejo lá, é sempre um “eu” descafeinado.”
Seria realmente assustador pensar em todas as pessoas com quem mantenho contato através da Internet como seres “descafeinados”. Acho que, atualmente, só tem duas pessoas com quem me comunico “virtualmente” que ainda não conheço pessoalmente. O resto – e não são poucas – são meus amigos, com quem sempre mantive contato pessoal, e outras pessoas mais distantes com as quais também já me encontrei. Pensar na Internet como uma rede de “contatos virtuais” ou “seres descafeinados”, isso sim seria realmente assustador. Alguém precisa avisar o tal do Zizek que as coisas não funcionam assim, que Internet não é só isso. Se há uma verdadeira revolução por causa da Internet é justamente a de poder favorecer a criação de comunidades REAIS de pessoas com os mesmos interesses que, sem a Internet, talvez nunca se encontrassem – pessoal ou virtualmente, não interessa. E ninguém está lá para se fazer de outro, adotar outra identidade. Alguém precisa avisar o Zizek que Internet não é só chat. Aliás, se alguém quer se fazer passar por outro, tem justamente os chats. Mas também tem milhares de serviços de bate-papo por telefone, pode ir num bar onde ninguém te conhece e mentir que é um cara podre de rico. O que é pior? É culpa da Internet?
Na verdade, o delírio de Zizek está nas entrelinhas. É um ranço teórico para o qual poucos dão importância, mas que determina cada vírgula do jeito de pensar de Zizek e de um bando de outras pessoas. Poucos conseguiram entender de fato as implicações nefastas das chamadas “filosofias da suspeita” (Marx, Freud e Nietzsche), levadas ao extremo, para a noção de liberdade e autonomia. No caso em questão, trata-se da maldita herença freudiana/lacaniana:
“Nossa identidade social, a pessoa que presumimos ser em nosso intercurso social, já é uma máscara, já envolve a repressão de nossos impulsos inadmissíveis.”
Viu? Nunca somos quem somos. Estamos sempre fingindo. Claro, isso pressupõe, obviamente, que exista um eu puro, ou que esse eu possa, pelo menos, ser pensado teoricamente. O resto seriam “camadas” sociais. E, para Zizek, quando isso tudo vai par a Internet, o universo acaba:
“O fato mesmo de que eu perceba minha auto-imagem virtual como simples brincadeira me permite, assim, suspender os obstáculos que usualmente impedem que eu realize meu “lado escuro” na vida real -meu “id eletrônico” ganha asas, dessa forma. E o mesmo se aplica aos meus parceiros na comunicação via ciberespaço. Não há como ter certeza de quem sejam, de que sejam “realmente” como se descrevem, ou de saber se existe uma pessoa “real” por trás da persona on-line. A persona on-line é uma máscara para uma multiplicidade de pessoas? A pessoa “real” com quem converso possui e manipula mais personas no computador, ou estou simplesmente me relacionando com uma entidade digitalizada que não representa pessoa “real” alguma?”
Jamais vi tanto delírio. E, para concluir, Zizek fecha o artigo com chave de ouro:
“as discrepâncias entre o que “você” realmente é e o que “você” aparenta ser no espaço digital podem resultar em violência homicida.”
Portanto, se você lê esse blog, cuide-se. Qualquer dia eu posso te matar por aí. Não sou quem sou.
Folha de S. Paulo
Mais!
São Paulo, domingo, 07 de janeiro de 2007
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Identidades vazias
Eleger a internet como exemplo democrático é esconder diferenças sociais, institucionais e psicológicas entre as vidas “real” e “virtual”
SLAVOJ ZIZEK
COLUNISTA DA FOLHA
Na edição de 25 de dezembro da revista “Time”, o prêmio tradicional de “Pessoa do Ano” não foi concedido a Mahmoud Ahmadinejad [presidente do Irã], Kim Jong-Il [ditador norte-coreano], Hugo Chávez [presidente venezuelano] ou qualquer outro membro da gangue dos usuais suspeitos, mas a “você”: a todos e a cada um de nós… usuários e criadores de conteúdo na web. A capa mostra um teclado branco com um espelho para uma tela de computador onde cada um de nós, leitores, pode ver seu reflexo. Para justificar a escolha, os editores mencionaram a transição das instituições para os indivíduos, que estão ressurgindo como cidadãos da nova democracia digital.
Há coisas que os olhos não conseguem ver, nessa escolha, e em um sentido mais amplo do que o comum nessa expressão. Se algum dia já houve uma escolha ideológica, esse é um caso que merece perfeitamente a classificação: a mensagem -uma nova democracia cibernética na qual milhões podem se comunicar e organizar diretamente, contornando o controle estatal centralizado- encobre uma série de brechas e tensões perturbadoras.
A primeira e mais evidente das ironias é que cada pessoa que olhe a capa da “Time” não verá as demais pessoas com quem supostamente se relaciona diretamente, e sim um reflexo de sua própria imagem. Não admira que Leibniz [1646-1716] seja uma das referências filosóficas preferenciais dos teóricos do ciberespaço: afinal, a imersão das pessoas no ciberespaço não se enquadra perfeitamente à nossa redução a uma mônada leibniziana que, embora “sem janelas” capazes de se abrir diretamente para as realidades externas, espelha em si mesma todo o universo?
Será que o típico internauta atual, sentado sozinho diante da tela de seu computador, não representa mais e mais uma mônada sem janelas diretas para a realidade, envolvido apenas com simulacros virtuais, e no entanto mais e mais imerso na rede mundial, e se comunicando de maneira sincrônica com todo o planeta?
Uma das mais recentes modas entre os radicais do sexo são as maratonas de masturbação, eventos coletivos nos quais centenas de homens e mulheres se autopropiciam satisfação sexual para fins de caridade. A masturbação cria uma coletividade a partir de indivíduos dispostos a compartilhar uns com os outros… o quê?
O solipsismo de uma diversão estúpida. Seria possível propor que as maratonas de masturbação são a forma de sexualidade que se enquadra de maneira mais perfeita às coordenadas do ciberespaço.
Mas isso é apenas uma parte da história. O que se torna preciso acrescentar é que o “você” que se reconhece enquanto imagem em uma tela padece de uma profunda divisão: eu jamais me limito a ser a persona que assumo na máquina. Primeiro, existe o (bastante evidente) excesso do eu como pessoa corpórea “real” além da persona virtual.
Ética virtual
Os marxistas e outros pensadores de inclinações críticas gostam de apontar para o fato de que a igualdade do ciberespaço é enganosa -ela ignora todas as complexas disposições materiais (meu patrimônio, minha posição social, meu poder ou falta dele etc.). A inércia da vida real desaparece magicamente na navegação pelo ciberespaço, desprovida de fricção.
No mercado atual, encontramos toda uma série de produtos privados de suas propriedades malignas: café sem cafeína, creme sem gordura, cerveja sem álcool… ciberespaço. A realidade virtual simplesmente generaliza esse procedimento: cria uma realidade privada de substância. Da mesma maneira que o café descafeinado tem cheiro e gosto semelhantes aos do café sem ser café, minha persona na rede, o “você” que vejo lá, é sempre um “eu” descafeinado. Por outro lado, existe também o excesso oposto, e muito mais perturbador: o excedente de minha persona virtual com relação ao meu “eu” real. Nossa identidade social, a pessoa que presumimos ser em nosso intercurso social, já é uma máscara, já envolve a repressão de nossos impulsos inadmissíveis, e é precisamente nessas condições de “só uma brincadeira”, quando as regras que regulam os intercâmbios de nossas vidas reais estão temporariamente suspensas, que podemos nos permitir a exibição dessas atitudes reprimidas.
Basta lembrar do mitológico sujeito tímido e impotente que, participando de um jogo virtual interativo, adota a identidade de um assassino sádico e sedutor irresistível. Seria simples demais afirmar que essa identidade é apenas um suplemento imaginário, uma fuga temporária de sua impotência na vida real. Na verdade, o que importa é que, porque ele sabe que o jogo virtual é “apenas um jogo”, ele se sente capaz de exibir “seu eu real”, fazer coisas que nunca fez em interações reais -sob a capa de uma ficção, a verdade sobre ele se articula.
O fato mesmo de que eu perceba minha auto-imagem virtual como simples brincadeira me permite, assim, suspender os obstáculos que usualmente impedem que eu realize meu “lado escuro” na vida real -meu “id eletrônico” ganha asas, dessa forma. E o mesmo se aplica aos meus parceiros na comunicação via ciberespaço. Não há como ter certeza de quem sejam, de que sejam “realmente” como se descrevem, ou de saber se existe uma pessoa “real” por trás da persona on-line. A persona on-line é uma máscara para uma multiplicidade de pessoas? A pessoa “real” com quem converso possui e manipula mais personas no computador, ou estou simplesmente me relacionando com uma entidade digitalizada que não representa pessoa “real” alguma?
Existência sublimada
Para resumir, “interface” quer dizer exatamente que minha relação com o outro nunca acontece face a face, que sempre há a mediação de uma maquinaria digital interposta cuja estrutura é labiríntica: eu “navego”, eu me perco sem muito rumo nesse espaço infinito onde mensagens circulam livremente sem destino fixo, enquanto seu Todo -esse imenso circuito de murmúrios- continua para sempre além do escopo de minha compreensão. O obverso da democracia direta do ciberespaço é essa caótica e impenetrável magnitude de mensagens e seus circuitos, que nem mesmo o maior esforço de minha imaginação é capaz de compreender -o filósofo Immanuel Kant [1724-1804] teria classificado o ciberespaço como “sublime”.
Pouco mais de uma década atrás, havia um brilhante comercial inglês de cerveja. A primeira parte reproduzia a conhecida história de uma moça que caminha ao longo de um riacho, vê um sapo, o toma nas mãos e beija, e o sapo miraculosamente se transforma em príncipe. Mas a história não acabava assim. O jovem olhava a moça de um jeito cobiçoso, a tomava nos braços, a beijava e ela se transformava em uma garrafa de cerveja, que ele exibia em um gesto triunfante.
Assombração na rede
A moça fantasiava sobre um sapo que na verdade era príncipe, o rapaz sobre uma moça que na verdade era uma garrafa de cerveja: para a mulher, seu amor e afeto (sinalizado pelo beijo) poderiam fazer de um sapo um príncipe, enquanto para o homem, tudo não passa de um esforço para reduzir a mulher ao que os psicanalistas designam como “objeto parcial” -aquilo que, em você, me faz desejar você (é claro que um argumento feminista óbvio seria que as mulheres, em sua experiência amorosa cotidiana, em geral experimentam a passagem oposta: beijam um belo jovem e, quando o vêem de perto, ou seja, tarde demais, descobrem que ele é um sapo…).
O casal real de homem e mulher, portanto, vive assombrado por essa bizarra figura de um sapo abraçando uma garrafa de cerveja. O que a arte moderna propicia é exatamente esse espectro subjacente. É perfeitamente possível imaginar um quadro do pintor surrealista Magritte no qual um sapo abraça uma garrafa de cerveja, com um título como “Homem e Mulher” ou “Casal Ideal” (a associação com a famosa cena surrealista do burro morto ao piano [do filme "O Cão Andaluz"] fica completamente justificada, nesse caso).
É essa a ameaça do ciberespaço e de seus jogos, no plano mais elementar: quando um homem e uma mulher interagem nele, podem se ver assombrados pelo espectro do sapo que abraça a cerveja. Já que nenhum dos dois está consciente disso, as discrepâncias entre o que “você” realmente é e o que “você” aparenta ser no espaço digital podem resultar em violência homicida.
SLAVOJ ZIZEK é filósofo esloveno e autor de “Um Mapa da Ideologia” (Contraponto). Ele escreve na seção “Autores”, do Mais!.
Tradução de Paulo Migliacci.
[...] Em seu blog, o Walter faz um fisking do último artigo de Slavoj Žižek na Folha. Caridoso, chega a considerá-lo um filósofo. Eu não seria tanto. Žižek se considera um neo-Leninista, e como tal merece tanta atenção quanto alguém que se declararia, em um público, um neo-polpotista, neo-mussolinista ou neo-leopoldo-II-da-belgiquista. O rótulo que Žižek escolheu para si é o suficiente para que qualquer pessoa de bem o ignore sem medo de estar sendo injusto ou intelectualmente preguiçoso. Não dá para levar a sério. [...]
[...] Eu tentei ler este artigo do esloveno Slavoj Žižek no Caderno Mais! da Folha de S. Paulo deste domingo, e desisti já no segundo parágrafo. Cheguei a pensar em terminá-lo para poder criticar depois, mas faltou força de vontade. Foi uma boa decisão, pois o Walter acabou fazendo todo o trabalho sujo para nós. Leiam, crianças: Zizek escreve sobre Internet como se estivesse em 1990. É a mesma história de sempre: televisão ia acabar com o rádio, Internet ia acabar com os livros, tudo ia acabar em 2000, os seres humanos seriam mortos pelas máquinas e pelos computadores. [...]
[...] Pelo menos eu tenho amigos que pensam por mim: hoje de manhã, Walter desancou o texto e o cara dum jeito que eu jamais conseguiria articular. Logo em seguida, o Solon botou mais uma pá de terra em cima. O Cisco, por sua vez, arruinou tudo por completo. Fiquei feliz com tanta disposição. [...]
Zizek é um panfletário de merda.
O “bem vindo ao deserto do real!” consegue falsificar até os autores tomados como aliados pelo Zizek. Lacanismo delirante.
o livro dele sobre Hegel, no entanto, tem um título divertidíssimo “o mais sublime dos histéricos”
não li, obviamente.
tô lendo o “metafísica do gozo”, por indicação de um professor, e tô odiando. negócio absurdamente sexista e lacanista…
“televisão ia acabar com o rádio, Internet ia acabar com os livros, tudo ia acabar em 2000, os seres humanos seriam mortos pelas máquinas e pelos computadores.”
rsrsrsrs
muito bom!
[...] A notícia abaixo me fez lembrar do Slavoj Zizek: [...]