Ainda preciso escrever um post explicando o NÚCLEO da minha tese de doutorado em Filosofia. Mas, por enquanto, vou escrever sobre o que ela NÃO É, ou, melhor, sobre contra quem terei que me posicionar.
A idéia pode ser expressa de forma relativamente simples: não há como fazer filosofia política que sirva para analisar a época atual utilizando como paradigma qualquer um dos “mestres da suspeita” (Freud, Marx e Nietzsche) e/ou seus herdeiros (autores da Teoria Crítica, Heidegger, Derrida, Foucault, Lacan etc).
Para os chocados, aviso que não adianta se desesperar. Só vou poder explicar isso detalhadamente em outro post. Antes, porém, vou bater no Heidegger. Há uns cinco anos, aqui na França, uma série de obras trouxeram novamente à tona a relação entre Heidegger e o nazismo.
Comecei a me interessar pelo assunto em um dos muitos colóquios realizados na França no ano passado para comemorar o centário de nascimento da Hanna Arendt (1906-1975), aluna, amante e, ao mesmo tempo, provavelmente a filósofa que escreveu uma das mais fortes críticas a Heidegger.
Comprei o livro de um dos palestrantes desse colóquio, o Jacques Taminiaux, chamado Arendt et Heidegger – La fille de Thrace et le penseur professional (Payot, 1992, reed. 2006). A “garota de Trácia” aparece no diálogo Teeteto, de Platão. É ela que se mata rindo ao ver Tales cair em um buraco porque estava observando os corpos celestes (“em sua avidez para conhecer as coisas do céu, ele deixou de prestar atenção naquilo que se encontrava sob seus pés“, 174a). O trecho é retomado infinitas vezes na história da filosofia e serve, principalmente, para mostrar o risco de se pensar sem considerar a realidade. No caso de Taminiaux, a jovem de Trácia é Arend; Heidegger é Tales, o pensador profissional, tropeçando no buraco nazista.
Além de Taminiaux, alguns outros filósofos franceses contribuíram para trazer novamente ao debate a relação entre Heidegger e o nazismo. Um dos mais polêmicos é Emmanuel Faye, professor na Université Paris X Nanterre, cujo livro mais importante, publicado em 2005, acaba de ser lançado em formato de bolso: Heidegger, l’introduction du nazisme dans la philosophie: Autour des séminaires inédits de 1933-1935 (LGF, 2007).
No excelente site de podcasts da Sorbonne há uma entrevista com Faye. Faço um resumo bastante por cima dos principais pontos do podcast.
Faye é demolidor e, ao expor a idéia de seu livro, começa com uma citação de um trecho de uma carta que Heidegger escreveu à sua então noiva, Elfride, em 1916:
“A alma judaica é inferior à minha alma, a influência judaica na nossa cultura e em nossas universidades é assustadora; e penso que a raça alemã deve procurar uma força interior suficiente para conseguir chegar ao topo“.
O objetivo de Faye, ao fazer uma análise exaustiva dos escritos do filósofo alemão, é mostrar que, ao contrário do que pregam os mais apressados e/ou complacentes, não há forma honestamente possível de achar que a adesão de Heidegger ao nazismo foi uma simples besteirinha, um tropeçozinho, um mero oportunismo.
Faye cita um trecho de uma conferência no ano letivo de 1933 – 1934, chamada “Sobre a essência da verdade” (publicada na íntegra somente em 2001), no qual ficam claras a idéias de um programa de dominação racial e de um projeto de exterminação. Heidegger fala explicitamente em “conduzir a possibilidade fundamental da essência da fonte originariamente germânica até a dominação” (Tomo 36/37 da obra completa em alemão, pg. 89).
Faye, a título comparativo, cita o que Hitler propõe em Mein Kampf: “conduzir os elementos originais de raça do povo alemão até uma posição dominante”
No capítulo 6 de seu livro, sobre a relação entre Heidegger e Carl Schmitt a respeito da identificação e do extermínio do inimigo, Faye volta a citar a preocupação de Heidegger:
“identificar o inimigo, inserido na raiz da existência do povo, com o objetivo de sua exterminação total“. O inimigo, obviamente são os judeus assimilados que, para Heidegger, minavam a “essência do povo alemão” a partir do seu interior.
Mas Faye vai mais longe ainda, para o pavor dos heideggerianos de carteirinha. Para ele, a adesão do filósofo ao nazismo não é somente um problema de engajamento político, é um problema presente nos próprios fundamentos de sua obra. O erro, para Faye, é fazer como Levinas e Habermas, que só pegaram os primeiros capítulo da obra principal de Heidegger, Ser e tempo (1927) e a leram aos olhos de Kierkegaard, passando a acreditar que tudo não passava de um projeto a favor da autenticidade individual, enquanto que toda a obra, abordando a questão da morte, conduz ao capítulo central sobre a Historicidade, no qual Heidegger afirma sem rodeios: “a existência autêntica somente se realiza no destino comum, na comunidade (Gemeinschaft), no povo (Volk)”. Não por acaso, lembra Faye, Volksgemeinschaft (comunidade do povo), é um dos principais conceitos nazistas.
Ao ser questionado sobre os bons argumentos apresentados por aqueles que simplesmente não largam o osso do heideggerianismo, Faye diz que é óbvio que existem diversos níveis de leitura, mas quando se lê expressões como “exterminação total” ou “fonte essencialmente germânica” não é preciso – digamos assim – muita hermenêutica para facilitar a interpretação.
É preciso, segundo Faye, uma leitura contextual, pegando os textos originais e levando em conta que a recepção de Heidegger em todos os países foi influenciada pela restrição do acesso aos seus textos. O controle disso sempre esteve com Hermann Heidegger, filho do filósofo, que só permite o acesso a “pessoas confiáveis”.
Destruindo qualquer possibilidade de contra-argumentação dos heideggerianos de que a adesão de Heidegger ao nazismo foi somente um erro provisório, depois abandonado, Faye cita outro trecho de Heidegger, em um seminário de 1934-35 (portanto, 1 ano depois da saída de Heidegger do cargo de Reitor nazista), chamado “Hegel e o Estado”:
“Costuma-se dizer que Hegel morreu em 1933, mas é justamente o contrário: foi em 1933 [ano de ascensão de Hitler ao poder] que Hegel começou a viver. O Estado de Hegel se realiza em 1933 com o nacional socialismo. E é preciso que esse Estado continue a durar a perder de vista.”
Mas o nazismo de Heidegger não pára na década de 1930. Em uma conferência sobre o Dispositivo (1949), Heidegger faz a seguinte comparação: “a agricultura mecanizada e os campos de extremínio são a mesma coisa“, ou seja, seriam a simples manifestação, entre tantas outras, da planificação promovida pela técnica moderna. A íntegra da conferência só foi publicada postumamente, em 1994.
Para Faye, portanto, é preciso ter cuidado tanto com o que é publicado sob a supervisão do próprio Heidegger depois da Segunda Guerra – ou seja, publicações omitindo os trechos comprometedores – quanto com o que foi feito de Heidegger pelos difusores de sua obra na França.
Faye volta sua artilharia contra o principal difusor da obra do filósofo na França, Jean Beaufret (1907-1982), conhecido por suas posições negacionistas e anti-semitas. Não é à toa que – voilà – encontramos Jacques Derrida metido, em 1968, no affaire entre Beaufret e François Fédier. Vale lembrar também que foi o Alain Renaut que, em 1976, lançou a polêmica sobre o monopólio de Beaufret em relação à publicação de Heidegger na França.
O exemplo de Beaufret mostra, segundo Faye, como é impossível ser totalmente heideggeriano sem, em algum momento, cair em alguma posição extremista. O argumento de Faye é dificilmente refutável: “Não conheço nenhum filósofo que, em algum curso, defenda a exterminação dos ‘inimigos internos’.”
A polêmica é total aqui na França. Talvez daqui a uns 20 anos chegue no Brasil com a força necessária. E, se chegar, provavelmente ficará limitada a discutir o nazismo de Heidegger e se esquecerá que Heidegger ainda é utilizado para pensar a técnica e que seu herdeiros, como Foucault (“Heidegger sempre foi, para mim, o filósofo essencial… todo meu progresso filosófico foi determinado por minha leitura de Heidegger.” 29/05/1984, Les Nouvelles littéraires), ainda são usados para elaborar teorias caducas sobre a modernidade.
[...] O Walter finalmente está postando mais sobre filosofia e sobre sua tese. Neste caso, o post é sobre a relação entre e o nazismo — a velha questão se a adesão do filósofo alemão foi um erro pessoal ou se foi consistente com sua filosofia. O Walter fica (e eu o acompanho, com meu entendimento inferior do assunto) no segundo campo. [...]
“O erro, para Faye, é fazer como Levinas e Habermas que só pegaram os primeiros capítulo da obra principal de Heidegger, Ser e tempo ”
Ahn?
Como assim Levinas “parou nos primeiros capítulos”? Levinas deve ter uns trocentos ensaios sobre a segunda parte de ser e tempo. Além disso ,muitas das críticas que tu identificas no Faye sobre o totalitarismo da doutrina do Heidegger são apontados de forma semelhante por Levinas.
Quanto à leitura da técnica e os textos de heidegger sobre os campos de concentração, creio que a conclusão é apressada em dizer que a compreensão de Heidegger – ou mesmo de Foucault – sobre a técnica está caduca – ou mesmo nazista. Vendo os textos do Stein ou do Loparich sobre estas questões, é evidente que Heidegger sacrificou muita coisa pela metafísica dele, mas ainda assim, não creio que a compreensão Heideggeriana de tecnica já deu o que tinha que dar, pelo contrário, acho que tem muita coisa que podemos pegar emprestado de Heidegger – mesmo que não diretamente; e mais ainda de Foucault. Mas nisso, é mais fácil a gente se matar do que concordar.
Tenho dificuldade, e já te disse isso, em simplesmente ‘descartar’ esta ou aquela contribuição em filosofia, acho que o trabalho monumental do Heidegger – e, em uma escala menor, de um Foucault ou mesmo de um teólogo como o Levinas – não pode ser deixado de lado pelas indiosicrassias dos autores.
Tem que falar as claras que Heidegger era um nazista maldito que fez as opções dele quando já era bem grandinho para fazê-las? Claro que tem, mas acho que também não dá para categorizar toda a contribuição dos fenomenólogos ou dos críticos (por menos que eu goste do Adorno, por exemplo) de “superadas” ou “nazistas” ou “totalitárias” ou “ultrapassadas”…
tá, chega. fica a minha levantada para abrir o debate e levar umas pauladas na cabeça :)
O meu problema sempre foi e provavelmente sempre será a total inadequação de categorias como “totalitário”, “poder”, “dispositivo”, “técnica”, “inconsciente”, enfim, qualquer coisa que ABSOLUTIZE o comportamento humano, para analisar qualquer coisa que seja do mundo contemporâneo.
Não é que eu despreze as obras de Heidegger e do Foucault, por exemplo. Não sei se esse é o termo, talvez seja, talvez não. A questão é que simplesmente não consigo ler aquela introdução do Ser e Tempo do Heidegger sem achar patético toda aquela ladaínha sobre “esquecimento do ser”. É só descer da cabana do Heidegger lá no alto da montanha da Alemanha e botar o pé no mundo real para ver que aquilo não faz o menor sentido.
Não consigo pegar a História da Loucura do Foucault ou qualquer outra coisa que ele tenha escrito e levar a sério a interpretação da modernidade que ele faz como exclusão do outro (loucos, presos etc). A modernidade passa a se preocupar com os loucos, por exemplo, justamente porque eles são percebidos como iguais a “nós” que têm algum problema, e não como “exclusão” do louco da sociedade, como quer o Foucault. É esse todo o problema: entender a modernidade como o contrário do que ela é, ou seja, uma progressiva e lenta libertação dos indivíduos, com todos os benefícios e desgraças que isso provocou e continua provocando – mas libertação de qualquer forma.
Por isso que insisto no fato, seguindo a onda dos franceses, de que é um absurdo completo querer separar a adesão nazista do Heidegger da filosofia dele. As duas coisas estão intimamente ligadas e uma só é possível exclusivamente por causa da outra. Como já disse, é só pegar o discurso de POSSE da reitoria e ver que, em cada maldita frase, está contida TODA a tal da “ontologia fundamental”. Já fiz esse exercício e o texto saiu vermelho de tão sublinhado.
Fracasso do mundo ocidental + esperança redentora em qualquer coisa que seja = teoria totalitária = comunismo (odeio o capital, só a revolução salva) = nazismo (odeio a modernidade e esses judeus capitalistas, só a nação salva) etc…
Minha bronca é que as coisas simplesmente não podem ser reduzidas ou ao inconsciente, ou ao trabalho, ou ao poder. Fazer isso é típico de filosofia de gabinete de gente que, em um artigo, salva o Brasil e o mundo. Isso é jogar no lixo a complexidade humana.
Pensar de acordo com categorias absolutas simplesmente nos cega para entender coisas como 1) a negação da constituição européia pelos franceses, mesmo com TODA a mídia “TOTALITÁRIA E MALVADA” do país a favor; 2) o voto contra o “desarmamento” no Brasil, com a Globo fazendo campanha aberta a favor; 3) a incapacidade completa e sem limites dos Estados “totalitários” e “opressores”, com seus aparatos jurídicos igualmente “opressores”, de lidar com o terrorismo; qualquer um passa por qualquer fronteira de qualquer lugar com o que bem entender a hora que quiser.
Não há explicação racional satisfatória para esse tipo de coisa e temos que aprender a lidar com isso.
DEVOLVE OS MEUS LIVROS DJÁ!!!
Massa.
Posta mais desses TROÇO aí, vai.
[...] Em fevereiro postei sobre uma entrevista que o Emmanuel Faye, professor na Université Paris X Nanterre, concedeu ao site de posdcasts da Sorbonne quando foi lançada a versão de bolso do seu clássico livro de 2005: Heidegger, l’introduction du nazisme dans la philosophie: Autour des séminaires inédits de 1933-1935 (LGF, 2007). Os seminários de 33 a 35 são aqueles que ninguém no Brasil leu, mas que todo mundo acha que pode comentar. E o Emmanuel Faye é o autor que, depois do Victor Farias com o Heidegger et le nazisme (1987) mudou o panorama dos estudos heideggenianos, mas que também ninguém leu no Brasil. [...]
É a caras da filosofia.
Desculpe meter minha colher de pau enferrujada em assunto tão douto, mas a relação de Heidegger com os Nazistas é absolutamente natural. Basta um pouco de História e um pouco menos de Filosofia para isso: Heidegger nasceu no centro de uma região essencialmente rural e católica conservadora (Igreja anterior a “Vaticano II”), que depois virou bastião Nazista, seu pai era tanoeiro e sacristão, estudou a vida toda em colégios da Igreja, tentou entrar para Cia de Jesus, foi seminarista, era apaixonado por Abraham a Santa Clara (sermonista barroco xenófobo e anti-semita). Isso com Heidegger. Olha o tempo em que ele viveu… Mundo acadêmico impregnado de um Romantismo Abastardado. Nas universidades a República de Weimar era chamada de “governo de judeus”. Emocionalmente, Heidegger era um capiau (fato que ele mesmo admite) do interior da Alemanha, região onde o anti-semitismo era (é?) milenar. Claro, já iamos esquecendo o enorme sucesso de O. Spengler e da beleza das mãos de Hitler… Junte tudo isso e outras coisas que não citei e temos Heidegger como Fuher da Universidade de Frib
Só uma objeção, nesse caso aqui: 2) o voto contra o “desarmamento” no Brasil, com a Globo fazendo campanha aberta a favor;
O objeto era inócuo, a proibição e a restrição de armas continua tão forte quanto seria se fosse proibida totalmente, os tramites burocráticos inviabilizam a posse e propriedade de armas na prática.
Ademais, existem anti-propagandas que visam efeitos contrários, por exemplo, um professor de filosofia da pós-graduação em direito da univ federal do Pará se candidatou a desembargador, passou pela lista sêxtupla da OAB e pela lista tríplice pela Governadora, na hora de escolher, a mídia vivia dizendo que ele era o favorito, pois era amigo da governadora e tudo, e justamente essa propaganda exaltando-o mexeu com o ego dos desembargadores que colocaram outra pessoa no cargo vacante pelo quinto constitucional.
Acredito na complexidade humana, e justamente por acreditar é que não duvido de que haja grupos poderosos que controlam boa parte do mundo, e se aproveitando da fuga da complexidade que fazem os mais simples, os manipulam para as suas próprias finalidades.
Não sou a favor do holocausto, porém também não concordo que a vítima de ontem (judeus) se tornem os algozes autorizados de hoje, que fabricam armas e as testam na palestina, e para manter sua dominação ideológica sobre o mundo colocam para funcionar a sua indústria de cinema, cujos donos da FOX, Warner e MGM são judeus, isso dos que eu sei, fora o restante…
E viva a complexidade humana…