Jürgen Habermas = Putin + Chávez + Chaui + PT

Ia deixar passar, mas não deu. Depois que o MINO CARTA postou sobre o artigo do Habermas no Caderno Mais! de domingo, não tem como ficar quieto.

Evidentemente, não vi nenhuma pessoa da Filosofia no Brasil comentar nada sobre a aberração do artigo (na íntegra abaixo).

Mas é o normal: 80% não leu (Prof. Dra. Chaui ensinou que não se deve ler jornal e/ou “sou magnífico o suficiente para me abster da realidade”); 10% leu e não entendeu; e 10% leu, viu as palavras “Süddeutsche Zeitung”, “Frankfurter Allgemeine”, “infotainment” e as expressões “jugo do lucro” e “formação em massa” e gozou.

Começo pelo Mino:

Diria, de todo modo, que o advento da televisão privada já causou danos notáveis à democracia e no mundo do deus mercado a força do dinheiro torna-se insustentável. É a lei do mais forte que está em vigor, a lei da selva, e ela se estabelece nitidamente na mídia em geral. Exemplo clamoroso é oferecido pelo Brasil, onde a mídia se alinha de um lado só, aquele da oligarquia. E ainda há quem fale em imprensa livre.

Feita a apresentação, vamos ao Habermas, que se sai com as seguintes pérolas introdutórias:

Há três semanas, o “Die Zeit” voltou à carga, falando de um “ataque de Wall Street à imprensa dos EUA”. O que há por trás desse tipo de manchete? Certamente, o temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade até hoje desempenhou: atender à demanda por informação e formação, sem comprometer taxas de lucro aceitáveis.

A objeção que se manifesta nessas questões se baseia na suposição polêmica de que os consumidores escolhem com autonomia, segundo suas preferências pessoais. Mas essa espécie de verdade acaciana certamente induz ao erro quando se trata de uma mercadoria tão peculiar quanto a informação política e cultural. Pois essa mercadoria a um só tempo atende e transforma as preferências de seus consumidores.

Em seguida, lança a bomba:

Ouvintes e espectadores não são apenas consumidores mas também cidadãos com direito à participação cultural, à observação da vida política e à voz na formação de opinião. Com base nesses direitos, não é o caso de deixar programas voltados a tais necessidades fundamentais da população à mercê da conveniência publicitária ou do apoio de patrocinadores. Mais ainda, as taxas que financiam esses serviços também não devem variar ao sabor dos orçamentos locais, isto é, da conjuntura econômica – é o que argumentam algumas emissoras num processo contra os governos locais, em trâmite no Supremo Tribunal Federal alemão. A idéia de uma reserva pública voltada para a mídia eletrônica pode ser interessante. (…) Quando se trata de gás, eletricidade ou água, o Estado tem a obrigação de prover as necessidades energéticas da população. Por que não seria igualmente obrigado a prover essa outra espécie de “energia”, sem a qual o próprio Estado democrático pode acabar avariado? O Estado não comete nenhuma “falha sistêmica” quando intervém em casos específicos para tentar preservar esse bem público que é a imprensa de qualidade.

E complementa com o nada absoluto que ele desenvolve há anos:

Pois tão-somente a discussão deliberativa fundamenta a suposição de que, no longo prazo, os processos democráticos propiciam resultados mais ou menos racionais. A formação de opinião por via democrática tem uma dimensão epistêmica, uma vez que envolve a crítica de afirmações e juízos errôneos. Esse é o papel de uma esfera pública dotada de vitalidade discursiva.

Estou interessado na questão da esfera pública – e, conseqüentemente, no papel do jornalismo nas democracias – há um bom tempo. Impossível entender qualquer coisa sobre o funcionamento das democracias liberais sem considerar o papel do que se costuma chamar – às vezes com um certo grau de comunismo – de “quarto poder”.

Tentei ler o Strukturwandel der Öffentlichkeit (na tradução em francês como L’espace public), de 1962, do Habermas, mas não fui muito longe. Lá pela página 150 já tinha aparecido tantas vezes a palavra “burguês” que eu já estava tonto (estou no doutorado e jamais consegui entender o que significa). Herdeiro da chamada Escola de Frankfurt e capacho do Adorno, Habermas jamais conseguiu superar um marxismo entranhado e – por isso mesmo – até pior do que a versão assumida.

Portanto, nada melhor para desvendar a opinião habermasiana sobre a mídia má do que citar uma filósofa/jornalista francesa, aproveitando que – ao contrário do que se imagina – qualquer coisa minimamente comuna (marxfoucaultderridabourdieulacan) desapareceu há tempos de qualquer leitura política minimamente aceitável na França (French Theory só tem importância atualmente para os comunas nos EUA).

A autora é Géraldine Muhlmann, com graduação em Filosofia na França e em Jornalismo na Universidade de Nova Iorque. No primeiro capítulo do seu Du journalisme en démocratie, ela debulha “A confusão das atuais críticas do jornalismo”. O primeiro alvo é – e como não poderia deixar de ser? – Noam Chomsky. Na mesma sacola ela inclui os franceses Halimi e P. Carles. O segundo alvo – também bastante previsível – é o sociólogo Pierre Bourdieu.

No primeiro caso, a crítica de Muhlmann se dirige a essa tendência incontrolável dos comunas de reduzir (reduzir é sempre fácil e cômodo) a relação da mídia com o público a uma relação de “público inocente / jornalistas malvados” (public innocent / journalistes malfaiteurs). No segundo caso, Muhlmann mete o pau no Pierre Boudieu e na análise que o sociólogo faz da “corrupção estrutural” do campo midiático, o que seria uma forma mais elaborada de ultrapassar a idéia tosca de um “público corrompido”, o pobre coitado.

A leitura é esclarecedora e só reforçou o que eu venho pensando há um bom tempo como sendo a característica fundamental de qualquer filósofo do desespero (ou da suspeita, segundo a versão adocicada do Paul Ricoeur) – Marx, Freud e Nietzsche e seus seguidores: Heidegger, Foucault, Bourdieu, Lacan, Derrida, Habermas, Agamben etc. O que caracteriza esse pessoal todo – por mais que a religião de cada um deles esperneie e tente salvá-los mostrando uma suposta complexidade às vezes quase mística em suas obras – é um paternalismo fora de controle.

Eles conhecem muito bem o que comanda a vida dos homens: é a luta de classes, são as relações de produção, é o inconsciente, são as relações de poder, é a estrutura. É a redução do ser humano a um ser débil e passivo, crianças e adolescentes manipulados que precisam da ajuda de seus pais para discernir o certo do errado. Nada mais fácil, portanto, como instrumento teórico. Mas também nada pode ser mais ineficaz para explicar qualquer coisa que se passa no mundo, muito menos atualmente. Contradições e imperfeições democráticas, opinião pública, papel da mídia, terrorismo, evoluções biológicas, crises ambientais: nada pode ser pensado seriamente com esses esquemas de explorados x exploradores. Já estamos cansados de saber de todas nossas deficiências e limitações e das “forças” que podem exercer influência sobre nós. E daí?

Habermas, no artigo, fala em “jornais e revistas sérios” e em “preservar esse bem público que é a imprensa de qualidade”. Obviamente só ele – filósofo de prestígio – e outros poucos eleitos podem definir o que é uma imprensa séria e de qualidade. Aos outros pobres mortais resta a passividade e a ignorância de seres manipulados pelas relações de mercado. Hugo Chávez também sabe exatamente o que é uma imprensa séria e de qualidade. Vladimir Putin também. Franklin Martins também.

Nada melhor para encerrar o post do que as palavras do crítico literário Marius Meller sobre o artigo do Habermas:

Em questões de moral, sr. Habermas, o ator principal é o indivíduo, não o sistema. Já nos anos 1980, o sr. profetizou a queda da democracia por conta da televisão privada, e estava errado. Eu sinceramente espero que o esquema gnóstico de bem e mal que o sr. tão frivolamente aplica ao liberalismo e ao neoliberalismo não se torne uma ideologia que um dia venha a invocá-lo como sua fonte. (…) O que o sr. sugere relembra a Rússia em tempos recentes (…) e dá margem a pensar, sobretudo para alguém que conhece sua teoria sobre a mudança estrutural do público, que o sr. é o porta-voz do Vladimir Putin.

Lá vai o artigo, seguido dos trechos do Marius Meller e de uma entrevista falando sobre a delícia que é o governo Hugo Chávez, aquele que sabe o que é a real imprensa de qualidade:

***

Folha de S. Paulo

Mais!

São Paulo, domingo, 27 de maio de 2007

O valor da notícia

A imprensa de qualidade desempenha um papel de liderança: rádio e TVs dependem de temas e contribuições provenientes do jornalismo “argumentativo”

JÜRGEN HABERMAS

Semanas atrás, a página de economia do jornal alemão “Die Zeit” assustou seus leitores com a manchete “O quarto poder corre perigo?”. Tratava-se da notícia alarmante de que o “Süddeutsche Zeitung” rumava para um futuro econômico de incertezas.
A maioria dos acionistas quer se ver livre do jornal; caso as coisas se encaminhem para um leilão, é possível que um dos dois bons diários supra-regionais da Alemanha [o outro é o "Frankfurter Allgemeine"] caia nas mãos de investidores privados, fundos de investimento ou conglomerados de mídia.
Haverá quem diga: “Business as usual” [negócios, como sempre]. O que poderia haver de alarmante no fato de que os proprietários queiram fazer uso de seu direito de se desfazer de seus negócios, sejam quais forem seus motivos?
A crise dos jornais, desencadeada no começo de 2002 pelo colapso do mercado publicitário, ficou para trás -no “Süddeutsche Zeitung” e em outros órgãos de imprensa da mesma dimensão. As famílias que agora se dispõem a vender sua participação detêm 62,5% das ações e escolheram um momento propício.
Apesar da concorrência digital e dos novos hábitos de leitura, os lucros vêm aumentando.
Deixando de lado a boa conjuntura econômica, os lucros se devem sobretudo a medidas de racionalização com impacto direto sobre o desempenho e a margem de manobra das redações. Notícias bombásticas à maneira do jornalismo norte-americano ditam a tendência atual.
Assim, por exemplo, o “Boston Globe”, um dos poucos jornais de centro-esquerda dos EUA, teve que renunciar a todos os seus correspondentes no estrangeiro, enquanto os grandes encouraçados da imprensa nacional -como o “Washington Post” e o “New York Times”- temem a capitulação diante de fundos ou conglomerados ávidos por “sanear” jornais em vista de taxas de lucro descabidas; no caso do “Los Angeles Times”, esse já é fato consumado.

Jugo do lucro
Há três semanas, o “Die Zeit” voltou à carga, falando de um “ataque de Wall Street à imprensa dos EUA”.
O que há por trás desse tipo de manchete? Certamente, o temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade até hoje desempenhou: atender à demanda por informação e formação, sem comprometer taxas de lucro aceitáveis.
Mas os lucros em alta não serão uma confirmação de que jornais “enxutos” satisfazem melhor os desejos de seus consumidores?
Conceitos vagos como “profissional”, “arrojado” ou “sério” não servem apenas para velar a preeminência concedida ao leitor adulto, que sabe o que quer?
A imprensa terá o direito de, sob o pretexto da “qualidade”, cercear a liberdade de escolha de seus leitores?
Por que forçar a leitura de reportagens áridas em vez de “infotainment” [fusão, em inglês, das palavras "information" e "entertainment", informação e entretenimento], comentários objetivos e argumentos circunstanciados, ao invés de encenações apelativas de personalidades e acontecimentos?
A objeção que se manifesta nessas questões se baseia na suposição polêmica de que os consumidores escolhem com autonomia, segundo suas preferências pessoais. Mas essa espécie de verdade acaciana certamente induz ao erro quando se trata de uma mercadoria tão peculiar quanto a informação política e cultural. Pois essa mercadoria a um só tempo atende e transforma as preferências de seus consumidores.

Formação em massa
Não há dúvida de que leitores, ouvintes e espectadores seguem suas preferências ao fazer uso dos meios de comunicação: querem se divertir ou se distrair, querem se informar ou tomar parte em debates públicos.
Mas, quando se interessam por um programa político ou cultural, quando recebem a “bênção matinal realista” da leitura de jornais, todos se expõem -com alguma medida de autopaternalismo- a um processo de aprendizado de resultados imprevisíveis.
No curso de uma leitura, novas preferências, convicções ou juízos podem se formar.
A metapreferência que orienta uma tal leitura se dirige então àquelas prioridades que se exprimem na auto-imagem de um jornalismo independente e que fundamentam o prestígio da imprensa de qualidade.
A polêmica sobre o caráter peculiar da mercadoria “informação e formação” faz pensar no slogan que fez furor quando do surgimento da televisão: essa nova mídia não seria mais que “uma torradeira com imagens”.
Pensava-se que a produção e o consumo de programas televisivos podiam ser deixados inteiramente a cargo do mercado. Desde então, as empresas de comunicação cuidam de fornecer programas para seus espectadores enquanto vendem a atenção do público a seus anunciantes.
Sempre que imperou sem peias, esse modo de organização causou danos políticos e culturais. O sistema “híbrido” de televisão [na Alemanha] é uma tentativa de remediar o mal.
E as leis locais, as decisões de tribunais federais e os princípios de programação das emissoras públicas refletem a noção de que as mídias eletrônicas não devem satisfazer apenas as necessidades mais comercializáveis dos consumidores.
Ouvintes e espectadores não são apenas consumidores mas também cidadãos com direito à participação cultural, à observação da vida política e à voz na formação de opinião.
Com base nesses direitos, não é o caso de deixar programas voltados a tais necessidades fundamentais da população à mercê da conveniência publicitária ou do apoio de patrocinadores.
Mais ainda, as taxas que financiam esses serviços também não devem variar ao sabor dos orçamentos locais, isto é, da conjuntura econômica -é o que argumentam algumas emissoras num processo contra os governos locais, em trâmite no Supremo Tribunal Federal alemão.
A idéia de uma reserva pública voltada para a mídia eletrônica pode ser interessante.
Mas algo assim poderia servir de modelo para a organização de jornais e revistas “sérios”, como o “Süddeutsche Zeitung” ou o “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, “Die Zeit” ou “Der Spiegel”, para não falar das revistas mensais mais ambiciosas?

Efeito político
O resultado de um estudo sobre fluxos de comunicação pode ter interesse nesse contexto: ao menos no âmbito da comunicação política -ou seja, para o leitor enquanto cidadão-, a imprensa de qualidade desempenha um papel de “liderança”: o noticiário político do rádio e da televisão depende em larga escala dos temas e das contribuições provenientes do jornalismo “argumentativo”.
Suponhamos que uma dessas redações caia nas mãos de investidores que trabalham com lucros rápidos e prazos curtos: a reestruturação e o enxugamento nesses lugares estratégicos não tardarão a pôr em risco os padrões jornalísticos e a afetar em cheio a vida política.
Pois a comunicação pública perde vitalidade discursiva quando lhe falta informação fundamentada ou discussão vivaz, coisas que não se obtêm sem custos.
A esfera pública não teria mais como opor resistência às tendências populistas e não seria mais capaz de desempenhar funções que lhe cabem no quadro de um Estado democrático de Direito.
Vivemos em sociedades pluralistas. O processo de decisão democrático só pode ultrapassar as cisões profundas entre visões de mundo opostas se houver algum vínculo legitimador aos olhos de todos os cidadãos.
O processo de decisão deve conjugar inclusão (isto é, a participação universal em pé de igualdade) e condução discursiva do conflito de opiniões.
Pois tão-somente a discussão deliberativa fundamenta a suposição de que, no longo prazo, os processos democráticos propiciam resultados mais ou menos racionais.
A formação de opinião por via democrática tem uma dimensão epistêmica, uma vez que envolve a crítica de afirmações e juízos errôneos.
Esse é o papel de uma esfera pública dotada de vitalidade discursiva.
Esse papel se evidencia intuitivamente tão logo se tenha em mente a diferença entre o conflito público de opiniões concorrentes e a divulgação de pesquisas de opinião.
Opiniões que se formam por meio de discussão e polêmica são, a despeito de toda dissonância, filtradas por informações e argumentos, enquanto as pesquisas de opinião apenas invocam opiniões latentes em estado bruto ou inerte.

Mediação
É claro que os fluxos díspares de comunicação numa esfera pública dominada pelos meios de comunicação de massa não permitem o tipo de discussão ou consulta regrada que tem lugar em tribunais ou sessões parlamentares.
Mas isso também não é necessário, pois a esfera pública é apenas um dos elos relevantes: ela faz as vezes de mediação entre discursos e discussões nos foros do Estado, de um lado, e as conversas episódicas ou informais de eleitores potenciais, de outro.
A esfera pública dá sua contribuição à legitimação democrática da ação estatal ao selecionar temas de relevância política, elabora-os polemicamente e os vincula a correntes de opinião divergentes.
Por essa via, a comunicação pública estimula e orienta a formação da opinião e do voto, ao mesmo tempo em que exige transparência e prontidão do sistema político.
Sem o impulso de uma imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia.
Quando se trata de gás, eletricidade ou água, o Estado tem a obrigação de prover as necessidades energéticas da população.
Por que não seria igualmente obrigado a prover essa outra espécie de “energia”, sem a qual o próprio Estado democrático pode acabar avariado?
O Estado não comete nenhuma “falha sistêmica” quando intervém em casos específicos para tentar preservar esse bem público que é a imprensa de qualidade.

Melhores resultados
O problema é apenas de ordem pragmática: como se alcançam os melhores resultados?
Em certo momento, o governo [do Estado] de Hessen concedeu ao jornal “Frankfurter Rundschau” um crédito subsidiado -sem sucesso. Mas as subvenções diretas são apenas um dos meios disponíveis.
Outros caminhos são as fundações com participação pública ou a renúncia fiscal para famílias envolvidas no ramo.
Nenhuma dessas soluções está livre de problemas. E ainda é preciso aclimatar a idéia de subvenções a jornais e revistas.
Em termos históricos, a idéia de regular o mercado da imprensa tem alguma coisa de contra-intuitivo. Afinal, o mercado foi outrora o cenário em que idéias subversivas puderam se emancipar da repressão estatal.
Mas o mercado só é capaz de desempenhar essa função se as determinações econômicas não penetrarem nos poros dos conteúdos culturais e políticos dispersos no mercado.
Agora, como antes, a crítica adorniana da indústria cultural constitui o ponto central. A observação cética é indispensável, pois nenhuma democracia pode se dar ao luxo de uma falha de mercado nesse setor.

JÜRGEN HABERMAS (1929) é um dos principais filósofos e sociólogos vivos. Colaborou entre 1955 e 1959 com Adorno e Horkheimer no Instituto de Pesquisa Social, em Frankfurt, e lecionou nas universidades de Heidelberg e de Frankfurt. Entre suas obras de maior impacto traduzidas para o português estão “Mudança Estrutural na Esfera Pública”, “Direito e Democracia” e “Consciência Moral e Agir Comunicativo” (Tempo Brasileiro). Este texto foi publicado originalmente no jornal alemão “Süddeutsche Zeitung”. Tradução de Samuel Titan Jr.

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Crítico compara Habermas a Vladimir Putin e chama seu artigo de “frívolo”

DA REDAÇÃO

Em artigo para o jornal “Tagesspiegel”, o crítico literário Marius Meller -editor literário desse jornal entre 2003 e 2006 e colaborador de publicações como “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, “Merkur” e “Kursbuch”- fez duras objeções ao argumento de Jürgen Habermas sobre o aporte de subsídios estatais para garantir a qualidade dos jornais impressos.
“Em questões de moral, sr. Habermas, o ator principal é o indivíduo, não o sistema. Já nos anos 1980, o sr. profetizou a queda da democracia por conta da televisão privada, e estava errado. Eu sinceramente espero que o esquema gnóstico de bem e mal que o sr. tão frivolamente aplica ao liberalismo e ao neoliberalismo não se torne uma ideologia que um dia venha a invocá-lo como sua fonte”, escreveu em 18/5 em resposta ao artigo de Habermas (leia pág. ao lado), originalmente publicado em 16/5.
Quanto mais livre a economia, mais livre é a imprensa, escreve Meller, o que significaria que, ao propor uma estatização dos meios de comunicação, o filósofo alemão estaria sugerindo que a imprensa livre corrompe.
“O que o sr. sugere relembra a Rússia em tempos recentes”, completa, “e dá margem a pensar, sobretudo para alguém que conhece sua teoria sobre a mudança estrutural do público, que o sr. é o porta-voz do [presidente russo] Vladimir Putin”, alfineta.

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Mídia a 7 Chávez

Fechamento da emissora venezuelana RCTV, que deixa de transmitir a partir das 23h59 de hoje, revela o lado perverso do controle da informação pelo Estado

FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

Se suscitou debates na Europa, o artigo de Jürgen Habermas defendendo o financiamento do Estado aos meios de comunicação de qualidade foi ignorado na Venezuela.
O tema aqui é mais urgente e gira em torno da decisão do governo de Hugo Chávez de não renovar a concessão do canal
RCTV, que deixa de transmitir às 23h59 de hoje.
“Chávez está trabalhando para criar uma hegemonia midiática, e não um monopólio comunicacional, como em Cuba ou na União Soviética. É algo mais sofisticado”, diz Teodoro Petkoff.
Ele prevê um papel sombrio para o “Tal Cual”, jornal que dirige desde 2000: legitimar a hegemonia midiática do governo.
Estar à frente do mais combativo jornal anti-Chávez é apenas uma pequena parte da biografia de Petkoff, 75. Participou de uma guerrilha de esquerda, nos anos 1960, e foi ministro do Planejamento, nos anos 1990.
Com tiragem diária de 25 mil exemplares, o “Tal Cual” tem um formato único na Venezuela: traz na capa um editorial assinado por Petkoff desancando o governo Chávez. A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha.

FOLHA – Habermas parte da premissa de que o “quarto poder está a leilão”. É esse o caso aqui?
TEODORO PETKOFF – No caso venezuelano, não está sendo leiloado, está sendo ameaçado pelo primeiro e único poder da Venezuela, o poder político, concentrado em Hugo Chávez.
Não se pode aplicar esse conceito à história dos nossos meios, porque a propriedade dos meios de comunicação tem sido muito estável. Os grandes diários venezuelanos, para falar da imprensa escrita, têm os mesmos donos desde sempre.
Nossos problemas são completamente diferentes e têm a ver com um conflito entre a propensão fortemente autocrática e controladora do governo e a resistência, cujo mecanismo para a maioria é simplesmente a autocensura.

FOLHA – Mas o financiamento público é um tema de debate na Venezuela por causa da publicidade oficial, sobretudo da estatal petroleira, a PDVSA.
PETKOFF – A publicidade oficial venezuelana tem um peso muito grande na pauta econômica dos meios de comunicação.
O Estado é o agente econômico mais poderoso da Venezuela, e isso tradicionalmente tem sido utilizado como meio de pressão -não foi Chávez quem inventou isso.
Só que, em outras épocas, nunca teve o caráter brutal que tem agora. Simplesmente a publicidade oficial foi negada durante anos a todos os meios de comunicação que tiveram posição crítica contrária ao governo.
Isso vem sido afrouxado ultimamente também porque a posição dos meios tem sido menos agressiva.
A publicidade oficial é um instrumento claríssimo de opressão porque aqui não há separação entre governo e Estado.
Uma vez que o governo decide não fazer publicidade num meio, não há instituição do Estado que anuncie ali.

FOLHA – O que muda na Venezuela com o fechamento da RCTV?
PETKOFF – Vejo tudo de uma forma mais sofisticada. Chávez tem claro que o papel da televisão é muito mais importante do que o de qualquer outro meio.
Ele está trabalhando para criar uma hegemonia midiática, e não um monopólio comunicacional, como em Cuba ou na União Soviética. É uma coisa mais sofisticada, uma vez que já anularam o canal Venevisión [do megaempresário Gustavo Cisneros], que simplesmente se alinhou com o governo e está fechado a qualquer opinião distinta.
E o fechamento do Canal 2 significa que 80% dos telespectadores cobertos pelo canal ficam isolados de qualquer opinião distinta à do governo. Isso num país onde a televisão chega aos rincões mais afastados.
Se, ao lado disso, se coloca o enorme aparato comunicacional do governo -televisões, rádios, dezenas de pequenos jornais-, estamos diante de um Estado avassalador que hegemoniza a comunicação, mas pode coexistir com outro meios de alcance mais reduzido. Não há problema em coexistir com a Globovisión [crítico de Chávez], porque ela é só de Caracas.
Quanto à mídia impressa, o governo sabe perfeitamente que o nível de leitura, comparado com outros países, talvez seja o mais reduzido do continente. É um país de telespectadores.
Então, com os jornais, administrando a publicidade do Estado adequadamente, pode ir levando. E um jornal como o “Tal Cual” pode existir; não o vejo fechando-o neste momento. É uma lição de Fidel Castro, sobre como ser totalitário mantendo uma imagem internacional relativamente democrática.
É claro que isso permite a Chávez dizer que existe liberdade de expressão. Há imprensa escrita, há outros canais de televisão, não tem problema. A coisa é astuta. É o que alguns sociólogos chamam agora de neototalitarismo.

13 Responses to “Jürgen Habermas = Putin + Chávez + Chaui + PT”

  1. [...] O Walter está com um post longo e cheio de palavras em francês sobre a crítica habermasiana à mídia e, hm, mais um monte de coisa. Resumo para quem está com preguiça de ler: [...]

  2. Aline Leão says:

    Olha ualter, para começar a televisão privada vem de uma concessão pública. Essa concessão precisa e deve ser revista, porque é publica e porque esses grupos a princípio não deveriam colocar seus interesses políticos e econômicos a frente desse serviço. Muito menos, como é no caso do Brasil, políticos deveriam ser donos de concessões como Sarney, ACM e Collor, todos donos de afiliadas da Globo. O jornalismo tem um papel importante na democracia porque ele leva o fato, a história ao conhecimento das pessoas. As pessoas não são ignorantes, acontece que o jornalismo não é imparcial, ele mostra uma face da verdade. O que é necessário explicar para as pessoas não é que elas estão sendo manipuladas pelo jornalismo mau é que aquele jornal tem tal visão de direita, aquela revista de esquerda. Explicar que aquela materia sobre o MST que dá no jornal Nacional é uma visão contada por alguém que defente tais e tais idéias. Não é a verdade absoluta, não é o fato exatamente como aconteceu, é uma visão. O que é preciso para as pessoas é ensinar a leitura crítica dos meios. É ver com espírito crítico, pensar sobre o que está sendo dito, formar sua própria consciência (seja ela de esquerda ou direita), procurar outras fontes, e não apenas absorver a informação e repetir conceitos. E isso não é ensinado nem nas escolas de comunciação. Isso é educação para a mídia. A mídia tem que ser fiscalizada sim, discutida pela sociedade, ampliada por meio das rádio comunitárias e escolas populares de comunicação. Isso é democratização dos meio de comunicação. Isso é dar voz ao povo.

  3. dv says:

    dar voz ao povo é aguentar idiotice infinita.

    sem querer esticar na filosofia, até porque sou bem burro pra isso, mas já achada a solução – educação crítica pro povão – vamos lá começar por ela. depois é esperar, que qualquer jornal feio e palerma vai FALIR sozinho.

    ou não, né. sempre tem quem queira assistir. problema alheio.

  4. Artur says:

    Como todos são comunas (de Marx a Derrida), toda esquerda é comuna. Como todo comuna é totalitário, toda a esquerda é totalitária. Como a democracia é incompatível com totalitarismo, por que não defender logo a defenestração de toda a esquerda do campo democrático?

    Por favor, sem tolerância. Não há tolerância diante de totalitarismos. A esquerda é abominável, intrinsecamente autoritária, além do mais é… burra.

    Imagino a visão idílica dessa democracia depurada de toda esquerda, logo, de todo totalitarismo. Belo sonho de direita, hein? Claro, os jornais seriam neutros, imparciais, absolutamente profissionais, e os jornalistas fariam doutorado na França. Ficariam mais inteligentes, certamente.

  5. B says:

    “Não há tolerância diante de totalitarismos.”

    Matou.

  6. Walter says:

    Um mundo sem autoritarismo (comuna ou de direita) seria ótimo. Mas estamos longe disso.

    Sem esquerda, nunca. Fazer piada com comunas é a coisa mais divertida do mundo

    Sobre “neutralidade” e “imparcialismo”, bom… todo mundo sabe que isso não existe e É BOM MESMO que não exista.

    Sobre o doutorado aqui na França: é em filosofia mesmo, não em jornalismo. Eu pedi a minha bolsa pro Lula e ele me deu. Pede lá também.

  7. [...] Duas citações para complementar o post ali de baixo sobre o texto do Habermas contra a mídia má: “(…) o modelo enaltecido por Habermas é uma torre de marfim da qual se afastam parcelas expressivas de potenciais consumidores de informação e opinião. O verdadeiro desafio para o jornalismo de qualidade é o de assegurar seus compromissos básicos (veracidade, relevância pública dos temas e enfoques, debate de idéias) mas ao mesmo tempo renovar-se para cativar leitores que também mudaram. A vulnerabilidade maior do texto, no entanto, está na solução sugerida. Habermas acredita que veículos de comprovada atuação “séria” -como julgá-lo? quem julgaria?- devam merecer subsídio do Estado, por representarem valores de interesse público. Solução inusitada, que faz pensar na estatolatria que tantas vezes se atribuiu à mentalidade alemã.” (Editorial, Folha de S. Paulo, 02/06/07) [...]

  8. Edson says:

    Na boa, Walter: o artigo do Habermas merece críticas, mas essa que o tal Marius Meller fez é de uma apelação de dar dó. Essa de dizer que e o tiozinho de Frankfurt podia ser chamado de “porta-voz de Putin” é dose. A questão não é “o Estado saber mais do que nós o que é sério”, mas sim fazer com que determinados tipos de conhecimento sejam públicos, e possam ser acessados por aqueles que não poderiam fazê-lo através do mercado. Vc acha que o fato do Estado custear o Roda Viva (um programa que só alcançaria meia dúzia de gatos pingados na TV a cabo, se dependesse do mercado) é uma ato paternalista?

    O problema do artigo do Habermas é que ele até tem uma boa visão teórica, mas pouquíssimo senso tático. Ele esquece que muito do que ele defende já acontece: o Estado financia TVs públicas, universidades capazes de manter um debate crítico (e que não precisam necessariamente depender do Estado), etc. Nos EUA mesmo, uma terra bem menos estatista do que a Alemanha, há o PBS e o Columbia Journalism Review. A proposta de custear jornais que vão mal das pernas perde muito do seu sentido – sem falar no problema da perda de independência que isso pode representar.

    Sobre a obra do tiozinho de Frankfurt: olha, descontando o estilo horrível que o hômi tem de escrever, eu até gostei do Mudança Estrutural da Esfera Pública. Mais do início, na parte histórica, em que ele fala do século XVIII – e não entendo a implicância com o termo “burguês”: naquele contexto histórico, ele faz todo o sentido (claro, se vc não entendê-lo no sentido marxista mais estrito – “donos de meio de produção” -, mas sim no mais antigo e geral – “habitantes dos burgos em ascendência social, opostos à aristocracia e aos camponeses e proletários”).

    O problema desse livro é quando ele começa a falar de televisão e contemporaneidade, começa a virar aquele chororô apocalíptico de sempre, embora tenha um ou outro dado interessante. Se bem que, segundo um professor meu, ele renunciou a esse pessimismo extremado nos livros posteriores (depois dessa artigo, tenho cá as minhas dúvidas).

    Por sinal, tem um livro de um sociólogo americano, Richard Sennett, que na introdução faz uma crítica ao Habermas parecida com essa que vc citou, só que muito mais curta (são só uns dois parágrafos), quase de passagem. É “O Declínio do Homem Público”, que tem uma hipótese bem mais original e complexa sobre a esfera pública do que o Habermas. Tem bem a ver com o tema do quarto poder que vc quer explorar – ou seja, eu recomendo a leitura.

  9. Lucas C. says:

    Walter,
    volta e meia leio teu blog, mas tem coisas que tu diz que eu acho completamente fora da realidade:
    1. Nietzsche é paternalista? Freud? (eu só li 3 livros do freud, e não vi grandes traços de paternalismo ali. no caso de Nietzsche, tenho certeza que tu não leu a obra dele)
    2. Tu acha errado não renovar contrato de emissora que tentou dar golpe de estado? Ao contrário do que os direitosos transtornados dizem, não renovar a RCTV não é uma questão de governo, mas sim de estado.

    Mas concordo quanto ao Habermas. Ele é um garoto de recados da velha escolinha de frankfurt querendo dar uma de bonzão. Mas acho que muito mais do que do Adorno, ele é paga-pau do Marcuse, embora eu tenha certeza de que Habermas nunca entendeu a fundo o que Marcuse escreveu, embora tente reinventar o tempo todo a obra deste.

    Quanto ao teu doutorado aí: não tem uma cláusula bizarra no teu contrato de venda de alma pra CAPES dizendo que tu vai ter que passar o resto da vida no bananão depois de terminar o doutoramento?

  10. Walter says:

    Li o bigode do Nietzsche desesperadamente quando era djóvem. O problema não é exatamente Nietzsche, Freud e Marx, mas – pra começar – o que fizeram com eles depois. Em seguida, a doença anacrônica de querer usar certos autores localizados no tempo para pensar questões atuais. Começar a ler um filósofo pode ser lindo, o problema é achar que ALGUÉM vai fornecer respostas para tudo e passar por cima de contextos históricos.

    Sobre a RCTV, sigo a opinião de uma amiga que mora em Caracas e que – me parece – tem uma visão lúcida das coisas. Segundo ela, é praticamente impossível saber quem é mais favelado mental: se a RCTV por ter apoiado o golpe ou se o Chávez por não ter renovado a concessão. Como sigo sempre a idéia de que a demência está em toda parte, tendo a concordar com ela.

    Sobre a bolsa da CAPES, tenho que voltar pro Bananão e acabar meu doutorado. Mas também não tenho nenhum plano de abandonar a Banana – pelo menos por enquanto.

  11. dietew says:

    Você está querendo tomar o lugar do Buch ou de algum outro ditador com o teu discurso contra a ditadura do totalitarismo?
    Interessante como o discurso pode assumir exatamente os contornos daquilo que critica. Talvez seja interessante estudar mais e sem os preconceitos os filósofos que você interpreta tão rasteiramente…

  12. Walter Valdevino says:

    dietew:

    É “Bush”, George Bush, não “Buch”.

    E, não, não estou querendo tomar o lugar dele.

    Tente responder com argumentos que aí talvez role um diálogo. Ok?

  13. [...] nunca ouviu falar, é aquele filósofo alemão que quer o nosso bem e nossa proteção e, por isso, defende “a idéia de uma reserva pública voltada para a mídia eletrônica” para se contrapor [...]

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