Controlar qualquer coisa? Evite.

Amanhã, 04/06/09, o Protesto na Praça da Paz Celestial (Tian’anmen), ocorrido na China em 1989, completa 20 anos.

Como se sabe, ontem o desgoverno chinês deu chilique e saiu bloqueando tudo que encontrou pela frente na internet: Twitter, Hotmail, Bing, YouTube, MSN, Flickr etc.

O objetivo era evitar ao máximo todas as formas de possíveis protestos. Como você também já está cansado de saber, poucas coisas neste mundo são mais imbecis do que tentar controlar a internet. Imediamente depois do bloqueio, milhares de chineses foram para os espaços que (ainda) não estavam bloqueados (blogs e fóruns de discussão) para reclamar das medidas.

Totalmente desgovernado, o desgoverno chinês conseguiu despertar ainda mais a fúria dos internautas do país e fez da medida o assunto principal em praticamente todos os blogs sobre tecnologia e internet ao redor do mundo. Conseguiu, portanto, justamente o oposto do que queria: fez com que não só os internautas chineses, mas o mundo inteiro, relembrassem o acontecimento de 1989.

Mas não foi só isso.  O desgoverno também conseguiu se auto-ridicularizar. Como postou, por exemplo, o blog do Seesmic, o acesso ao site do Twitter foi efetivamente bloqueado, mas esqueceram de bloquear aplicativos de postagem como o Seesmic Desktop ou o twhirl (que, aliás, eu uso e recomendo). Resultado: o bloqueio não fez diferença alguma, ainda mais porque quem ainda postava pelo site logo ficou sabendo que era possível postar com o uso de aplicativos. Derrota moral sem limites.

No meio disso tudo, uma matéria da BBC Brasil chamou minha atenção: “Vinte anos depois de massacre, juventude chinesa quer sucesso e dinheiro“. Vale a pena ler a matéria inteira, mas ela pode ser resumida pelo seguinte trecho:

“De acordo com o dissidente [Han Dongfang, um dos líderes do movimento de 89, atualmente exilado em Hong Kong, de onde advoga pelos direitos dos trabalhadores chineses], as formas de construir uma China democrática não se resumem aos protestos de 1989 e atualmente o país está caminhando em direção à abertura porque a criação de prosperidade traz inevitavelmente o questionamento e o desejo por liberdade.”

A opinião de Dongfang é interessante porque vai além da situação chinesa. Para o desespero daqueles prejudicados mentalmente por alguma ideologia, ninguém mais está disposto a fazer revolução.  É um fato e não há o que fazer para mudar isso. A maioria das pessoas, na maior parte do mundo, da mesma forma que os chineses, está muito mais interessada em “sucesso e dinheiro” do que em política.

Às vezes é preciso fazer um esforço para perceber que a ruína da ditadura chinesa  - e o mesmo vale para qualquer tipo de tentativa de controle em qualquer lugar do mundo – ocorrerá internamente não porque os chineses que estavam organizando protestos por MSN tiveram sua comunicação interrompida, mas porque milhares (e população para isso não falta) de pessoas que não querem nem saber de política ficaram furiosas porque suas conversas, interesses e negócios particulares foram prejudicados por esse bloqueio.

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5 Responses to “Controlar qualquer coisa? Evite.”

  1. nythamar says:

    Oi Walter! Achei bem legal esse teu último post… Eu costumo ler os teus posts neste blog e naqueles outros, mas sempre acabo sem tempo de postar algum comment. Acho que fazes um importante gancho teórico entre internet e democratização, mesmo que esta se dê aos trancos e barrancos e a despeito de tantas contradições no (des)governo chinês, mas parece que as liberdades individuais –até por razões desvinculadas de cidadania ou consciência democráticas– acabam prevalecendo sobre os imperativos sistêmicos de um regime autoritário. Como será que o Tocqueville escreveria um texto sobre a “democracia na China” –parece que a sua tese da primazia da igualdade sobre a liberdade ficaria bem comprometida –ou não???
    Salut,
    nythamar

  2. Walter says:

    Nythamar:

    Decidi retomar um autor como o Tocqueville para analisar determinados problemas contemporâneos porque acho que ele tem um argumento importante ao ir na contramão da tradição que estabelece a autonomia (e a liberdade, portanto) como fundamento da democracia.

    O ganho dessa escolha é o de não ter que pressupor nenhuma concepção de natureza humana – o que sempre gerou impasses na história da filosofia – nem ter que procurar algum tipo de justificação racional para a própria racionalidade/autonomia.

    O que, para muitos, é desconcertante em Tocqueville é que essa visão mínima e negativa dos homens como seres fracos e colocados em situação de igualdade tanto pode abrir espaço para as maiores realizações quanto para as maiores tiranias. Foi a própria escolha desse princípio de igualdade que levou a isso, mas foi uma escolha que as sociedades democráticas fizeram (e ainda fazem, no sentido de buscar a igualdade como um ideal).

    No caso dos regimes democráticos, ele não separa a liberdade da igualdade, mas coloca a igualdade como anterior à liberdade, como condição indispensável para que seja possível criar espaço para a liberdade.

    Nesse sentido, no caso chinês, já há uma clara violação do princípio da igualdade imediatamente a partir do momento em que um determinado grupo de homens difere dos demais, colocando-se em uma posição superior, ao tentar determinar o que pode e o que não pode ser lido, acessado e registrado na internet – violando, assim, liberdades individuais.

    O que é mais interessante ainda, nesse caso chinês, é que a globalização amplia a questão da igualdade. Não se trata somente da desigualdade (que viola liberdades fundamentais) estabelecida por esse pequeno grupo que tenta controlar as opiniões, mas do fato de que agora é possível que um grande número de pessoas compare a situação do país com a do resto do mundo e perceba as diferenças.

    Tem um trecho do Tocqueville que eu havia selecionado e que se aplica perfeitamente ao caso:

    “Nos tempos de igualdade, cada indivíduo é naturalmente isolado; não tem amigos hereditários, não tem classe cujas simpatias lhe estejam garantidas; põem-no facilmente à parte e pisoteiam-no impunemente. Em nossos dias, um cidadão oprimido só tem um meio de se defender: dirigir-se à nação inteira e, se ela lhe for surda, ao gênero humano. E só há um meio para fazê-lo, a imprensa. Assim, a liberdade de imprensa é infinitamente mais preciosa nas nações democráticas do que em todas as outras; só ela cura a maioria dos males que a igualdade pode produzir. A igualdade tira de cada indivíduo o apoio de seus próximos; mas a imprensa lhe permite chamar em seu socorro todos os seus concidadãos e todos os seus semelhantes. A tipografia apressou os progressos da igualdade e é um de seus melhores corretivos. Penso que os homens que vivem nas aristocracias podem, a rigor, prescindir da liberdade de imprensa; mas os que vivem nos países democráticos não o podem fazer. Para garantir a independência pessoal destes, não confio nas grandes assembleias políticas, nas prerrogativas parlamentares, na proclamação da soberania do povo. Todas essas coisas se conciliam até certo ponto com a servidão individual; mas essa servidão não seria completa com a imprensa livre. A imprensa é, por excelência, o instrumento democráticos da liberdade”. (A Democracia na América, vol II. Martins Fontes, p. 398).

    Um abraço!

  3. nythamar says:

    OK Walter, excelente post –assim como a citação do Tocqueville. Se entendi bem, T quer evitar a primazia da liberdade para não incorrer na tirania da maioria. Mas como fica a questão da igualdade ser usada como ideologia se a própria mídia pode se tornar um consenso fabricado?

  4. Walter says:

    Nythamar:

    Acho que se a mídia se tornar uma espécie de consenso fabricado, temos que pensar duas coisas. Primeiro, que há, de fato, um risco permanente de manipulação nas democracias. É o preço a se pagar por escolher viver em uma sociedade que tenta garantir o máximo de liberdade e igualdade para os cidadãos.

    Como escreveu Tocqueville, “nos tempos de igualdade, cada indivíduo é naturalmente isolado; não tem amigos hereditários, não tem classe cujas simpatias lhe estejam garantidas; põem-no facilmente à parte e pisoteiam-no impunemente”. Essas pessoas, muito mais preocupadas com seus interesses particulares e, portanto, afastadas dos assuntos públicos, são muito mais facilmente manipuladas. A pergunta é: já existiu ou é possível existir uma sociedade em que a maioria da população seja esclarecida o suficiente para não se submeter à manipulação, ou isso não passa de utopia filosófica? Faço a pergunta, é claro, de forma retórica. Acho que é utopia filosófica que – o que é mais grave – sempre pressupõe uma interpretação do que seria uma visão adequada de mundo.

    Em segundo lugar, uma democracia razoavelmente estabilizada é o único regime capaz de evitar que manipulações provoquem estragos consideráveis. Mas não acho que essa manipulação será evitada pelo “lado” da autonomia ou, então, do debate deliberativo ou de qualquer outra proposta filosófica que insista na questão da racionalidade como primeira impulsionadora de reação. Em democracias individualistas, tentativas de manipulação e de controle fracassarão quando passarem a afetar o que as pessoas consideram fundamental, ou seja, seus interesses privados e sua liberdade.

  5. [...] ainda me ocupo de música e política se meu fone esquerdo estourou e se nada mais importa além de sucesso & dinheiro – não que algo diferente disso importe nesse [...]

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