Recomendo fortemente a leitura da coluna de hoje do maior intelectual do estado mais intelectualizado e politizado do Brasil:
“Terça-feira, 09 de junho de 2009
Mangabeira Unger
Postado por Sant’Ana às 06h45
Há muito tempo que eu não me apaixonava por um homem. (…) Não há no Brasil quem detenha mais conhecimento do que ele. Sua visão sobre todas as questões humanas e planetárias é tão genial, que não há dúvida de que ele está pronto para ser um estadista de repercussão fenomenal. (…) Eu me apaixono por homens que são dotados de descomunal inteligência e riqueza invulgar de pensamento. Este é o único brasileiro que conheço nessa condição.”
Mangabeira Unger, como todos nós estamos exaustos de saber pelo menos desde janeiro de 2006, é amigo de longa data de Daniel Dantas e atuou, entre 2002 e 2005, como consultor da Brasil Telecom (recebeu US$ 1,176 milhão) e, ao mesmo tempo, como trustee do grupo Opportunity - de Dantas e, na época, acionário da Brasil Telecom.
O resto da história você também está cansado de saber: Mangabeira, depois de ter chamado o governo petista de “o mais corrupto de nossa história nacional“ e acusado Lula de ser “avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância” e “inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou”, em artigo na Folha de S. Paulo do dia 15 de novembro de 2005, assumiu a SEALOPRA (Secretaria Especial de Ações a Longo Prazo - nome que, infelizmente, não foi adotado e se transformou na Secretaria de Assuntos Estratégicos).
Em janeiro de 2008, por exemplo, Mangabeira aplicou sua “descomunal inteligência e riqueza invulgar de pensamento” ao propor, em Manaus, juntamente com uma comitiva de 38 a$$e$$ore$, solucionar o problema da seca nordestina construindo um aqueduto da Amazônia até o Nordeste. Dois dias depois, Mangabeira e seus 38 a$$e$$ore$ foram informados de que “só em Manaus, onde vivem mais de 1,8 milhão de habitantes, quase 700 mil não dispõem de água encanada em suas casas” e que, portanto, o mangabeiroduto da “ação revolucionária em direção a uma obra libertadora” deveria ser construído em outro lugar.
Como também já estamos exaustos de saber, Mangabeira Unger é o filósofo brasileiro mais citado no exterior, em grande parte devido às referências feitas por Jürgen Habermas. O filósofo alemão, criador da chamada Ética do Discurso, é autor de uma obra vasta e complexa, que inclui, entre outros, os livros Consciência moral e agir comunicativo (1983), O discurso filosófico da modernidade (1985), Pensamento pós-metafísico (1988), Comentários à ética do discurso (1991), Direito e democracia (1992), A inclusão do outro (1996), Verdade e justificação (1999), O futuro da natureza humana (2001), Fé e saber (2002) e Entre naturalismo e religião (2005).
Um exemplo prático de uma sugestão de Habermas - que, da mesma forma que Mangabeira, é frequentemente descrito como possuidor de ”descomunal inteligência e riqueza invulgar de pensamento” - pôde ser conferido no artigo que o filósofo alemão publicou no jornal Süddeutsche Zeitung, reproduzido pelo Caderno Mais! da Folha de S. Paulo em 27 de maio de 2007:
“Ouvintes e espectadores não são apenas consumidores mas também cidadãos com direito à participação cultural, à observação da vida política e à voz na formação de opinião. Com base nesses direitos, não é o caso de deixar programas voltados a tais necessidades fundamentais da população à mercê da conveniência publicitária ou do apoio de patrocinadores. (…) A ideia de uma reserva pública voltada para a mídia eletrônica pode ser interessante. (…) Quando se trata de gás, eletricidade ou água, o Estado tem a obrigação de prover as necessidades energéticas da população. Por que não seria igualmente obrigado a prover essa outra espécie de “energia”, sem a qual o próprio Estado democrático pode acabar avariado? O Estado não comete nenhuma “falha sistêmica” quando intervém em casos específicos para tentar preservar esse bem público que é a imprensa de qualidade.”
Resumidamente, é a defesa da Tê Vê Braziu em versão alemã - uma espécie de Tê Vê Chuchute - já que é necessário que o Papai E$tado intervenha para evitar que as massas, oprimidas e ignorantes, sejam influenciadas pela mídia má, feia, bobona, neoliberal, mercadológica, golpista, neocon e imperialista.
Na mesma edição do Caderno Mais!, o crítico literário Marius Meller, em 3 frases, implode a obra completa de Habermas:”Em questões de moral, sr. Habermas, o ator principal é o indivíduo, não o sistema. Já nos anos 1980, o sr. profetizou a queda da democracia por conta da televisão privada, e estava errado. Eu sinceramente espero que o esquema gnóstico de bem e mal que o sr. tão frivolamente aplica ao liberalismo e ao neoliberalismo não se torne uma ideologia que um dia venha a invocá-lo como sua fonte“.
Acho que Meller pegou leve demais.
Paulo Sant’Ana admira Mangabeira Unger, o filósofo brasileiro mais citado no mundo porque Habermas, defensor de subsídios estatais para garantir a qualidade da imprensa (o que ele entende por qualidade, bem entendido), achou que sua obra merecia ser comentada.
É impressão minha ou o universo faz cada vez mais $entido?
Tags: Filosofia, Habermas, Mangabeira Unger, Paulo Sant'Ana
Habermas foi aniquilado por RATZINGER naquela dupla de artigos publicado pelo Mais! certa feita.
No mais, exijo Sant’ana lendo UNGER ao vivo e vestido de baiana no Jornal do Almoço. A RESISTÊNCIA CULTURAL agradece.
Walter desrespeitando tradição alemã, americana-brasileira e gaóucha em um mesmo texto.
Proce$$arei demais.
Wlater, muito interessantes e divertidos os teus comentários! O Mangabeira e o Sant’anna são “coisa nossa”, da nossa cultura surreal tupiniquim, da nossa TV Braziu pós-moderna em tempo real, nosso reality show de cada dia. O Habermas obviamente não pode compreender uma sociedade que não passou pela modernidade weberiana (racionalização, secularização etc decorrentes de um Iluminismo que nunca aconteceu in terra brasilis). As nossas antropofagias e macaquices filosóficas só o confirmam: le Brésil n’est pas sérieux, Brazil is not for real! E la nave va…