Trecho de um dos editoriais da Folha de S. Paulo de ontem:
“Não faltam estudos apontando que o ensino médio se encontra numa encruzilhada no Brasil. Mais um acaba de surgir, realizado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas. Registra que um em cada cinco jovens entre 15 e 17 anos – a idade-alvo do antigo segundo grau – abandona a escola na Grande São Paulo. É o maior índice entre as seis regiões metropolitanas avaliadas.”
Matéria publicada na Folha de S. Paulo de hoje:
“Professor sem preparo trava uso de computador em escola – A implantação de laboratórios de informática em todas as escolas públicas do país até o fim de 2010, prometida pelo governo Lula, esbarra no despreparo dos professores para usar o computador e na falta de manutenção dos equipamentos e das instalações, responsabilidade de Estados e municípios. É o caso de Almenara (MG), onde os 15 computadores da escola estadual Angelina Nascimento são usados apenas por cerca de 15 horas ao mês. Motivo: os professores temem quebrar as máquinas.”
Ok, tudo mundo sabe que o sistema educacional está falido e ninguém tem a menor ideia do que fazer a respeito. Mas o que pouca gente percebe é que a grande responsável pela falência completa no entendimento do que está acontecendo é a macaquice intelectual que toma conta de boa parte do meio acadêmico brasileiro. Resgatar certas ideias e autores -geralmente apóstolos do que eu chamo de filosofia do desespero – sempre parece ser a saída mais fácil para tentar encontrar alguma explicação para tudo que escapa à mínima compreensão.
O exemplo mais recente e constrangedor é um artigo intitulado “Pensar a educação depois de Foucault”, publicado na última edição da Revista Cult. A revista, como se sabe, transformou-se em um panfleto esquerdista decadente. Na capa da edição anterior, Marilena Chaui – aquela que achava que o mensalão foi uma “construção fantasmagórica da mídia” –, sorridente, toma conta de toda a capa da revista, que a considera “uma das personalidades mais admiráveis do país”. Cada um com a canalhice intelectual que lhe agrada, mas o problema neste caso é que a revista tem se dedicado há bastante tempo à questão da educação e tornou-se referência não só para 9 entre 10 estudantes de pedagogia saltitantes, como também para um certo público de estudantes do ensino médio.
O texto sobre a educação do “Dossiê Foucault” , disponível na íntegra no site da revista, é um dos sinais da lástima acadêmica nacional. Não vou nem entrar na questão do problema gigantesco que é usar Foucault para tentar entender QUALQUER COISA do mundo atual nem nas firulas interpretativas que fizeram de sua obra (sempre surgirá alguém para defender que “não foi bem isso que ele quis dizer”).
O problema, aqui, é mais primário: os argumentos do texto estão ERRADOS. Matematicamente errados, estatisticamente errados.
Vamos a eles, com grifos meus:
“A passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de controle permite entender as mudanças pelas quais a instituição escolar vem passando desde a última década a fim de tornar-se a instância de produção do novo sujeito moral, o sujeito flexível, tolerante e supostamente autônomo, requerido pelas novas modulações do controle que gravitam entre o Estado e o mercado neoliberal. Nesse processo, tornaram-se decisivas novas tecnologias informacionais, nutricionais, educativas e físicas, as quais se destinam a ampliar as capacidades corporais e cognitivas dos indivíduos, que devem se tornar empreendedores de si mesmos.”
Agora, à análise de cada um dos absurdos:
- “Tecnologias informacionais“ – O segundo texto da Folha, citado acima, comprova estatisticamente e com fatos a falência completa da adoção de “tecnologias informacionais” nas escolas. Aliás, um dos grandes problemas educacionais contemporâneos é como fazer com que essa coisa defasada chamada escola consiga competir com as possibilidades praticamente infinitas abertas pelas novas tecnologias.
Conclusão: sociedade de controle através de tecnologias informacionais = não existe.
- “Tecnologias nutricionais” – Segundo o estudo Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizado pelo Ministério da Saúde e pela USP e publicado no início do mês, 43,3% da população brasileira está com o peso acima dos níveis recomendados e 13% está obesa. Esta matéria, de 2001, afirma que “a obesidade infantil aumentou cinco vezes nos últimos 20 anos no Brasil” e “já atinge cerca de 10% das crianças brasileiras”. Esta outra, de 2006, afirma que “no Brasil, 15% dos nossos jovens estão acima do peso, sendo 5% obesos; estima-se um aumento de 240% da obesidade infantil, no nosso país, nos últimos 20 anos.” Dado o estrago da situação, na semana passada, a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou uma lei que proíbe as cantinas em escolas públicas e particulares de vender alimentos com gordura trans, o inclui coxinhas, doces e refrigerantes. Mas o presidente do Sieesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo) dá a real: “A medida é eleitoreira e não adianta. Na saída da escola, as barracas vão continuar vendendo pastel.” Faliu o tal do controle para moldar o “sujeito flexível” e adaptado ao “mercado neoliberal”?
Conclusão: sociedade de controle através de tecnologias nutricionais = não existe.
- “Tecnologias educativas” – Como se vê pelo texto do editorial da Folha citado acima, “um em cada cinco jovens entre 15 e 17 anos – a idade-alvo do antigo segundo grau – abandona a escola na Grande São Paulo”. Se isso não é sinal de falência das “tecnologias educativas”, eu não sei o que é.
Conclusão: sociedade de controle através de tecnologias educativas = não existe.
- “Tecnologias físicas” – Reler os dados acima no item “tecnologias nutricionais”. Depois, refletir sobre a questão da obesidade, sobre as aulas de educação física que você teve na escola e sobre os atletas brasileiros e a quantidade de medalhas que o país ganha em olimpíadas.
Conclusão: sociedade de controle através de tecnologias físicas = não existe.
Analisar o mundo de diversos pontos de vista é sempre recomendável. O problema é quando o ponto de vista adotado não tem relação alguma com nada de nada que se passa no mundo.