Tópicos Especiais em Subjetividade, Ética e Política I – 2018-2

UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO
UFRRJ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

DISCIPLINA: IH 1306 – Tópicos Especiais em Subjetividade, Ética e Política I – 2018-2
CRÉDITOS: 3
HORÁRIO: Segundas-feiras, 15hs – 18hs
SALA: Sala 5 (PPGFil) do Prédio do PPG-ICHS-UFRRJ

Prof. Dr. Walter Valdevino
waltervaldevino@gmail.com
http://www.waltervaldevino.com/topicos-especiais-2018-2

O dualismo mente versus corpo e suas consequências
para os pensamentos ético e político contemporâneos

EMENTA:

A Modernidade, sobretudo a partir de René Descartes (1596–1650), radicalizou o dualismo entre mente e corpo, colocando uma certa visão idealizada de racionalidade como hierarquicamente superior às “paixões” do corpo.

Por um lado, essa guinada racionalista teve explicação histórica, sendo absolutamente útil para combater arranjos sociais baseados na tradição e em crenças irracionais (políticas e religiosas), estabelecendo, assim, os princípios das democracias liberais (neutralidade, pluralismo, separação entre Estado e Igreja etc.).

Por outro lado, as expectativas normativas levantadas por esse dualismo racionalista deram origem a uma longa tradição que passa por autores como Descartes, Immanuel Kant (1724-1804), Jean Piaget (1896-1980), Lawrence Kohlberg (1927-1987), Elliot Turiel (1938), John Rawls (1921-2002), Jürgen Habermas (1929) etc. Todos esses estão, cada um a sua maneira, empenhados em elaborar teorias – metafísicas, morais, políticas ou educacionais – do dever ser, do que seria uma sociedade idealizada se a racionalidade conseguisse superar os impulsos “inferiores”, conflituosos e irracionais dos homens. Isso fez com que as teorias normativas da Filosofia Política contemporânea tenham pouco a dizer – além de meras aspirações idealizadas – sobre as crises políticas que são uma constante nos regimes democrático-liberais. Tribalismos (religiosos, políticos e ideológicos), isolamento identitário, vieses cognitivos e limitações empírico-informacionais do conhecimento são aspectos gravemente negligenciados nas teorias políticas normativas de inspiração kantiana.

O curso, portanto, tem como objetivo, primeiramente, abordar as origens desse dualismo racionalista cartesiano, passando pelas apropriações pedagógicas, morais e políticas kantianas de Piaget, Kohlberg, Turiel, Rawls e Habermas, para, então, retomar uma leitura naturalista e darwinista da moralidade e da política.

É preciso superar certo ranço corporativista da Filosofia, de modo a pensar de que forma as contribuições de áreas como a biologia, a teoria da evolução, a psicologia evolutiva, a neurociência etc. podem nos ajudar a ter um panorama mais claro e realista do funcionamento da moralidade e da política. Abrir mão desse racionalismo sem fundamento científico e de suas idealizações – sobretudo a visão kantiana de livre arbítrio – ajudará a melhor aceitamos as limitações tanto dos cidadãos quanto das próprias idealizações dos regimes democrático-liberais.

O curso será dividido em 3 unidades:

Unidade I

A tradição racionalista. Leitura de textos selecionados de René Descartes e comentadores; e leitura de textos selecionados de John Rawls e Jürgen Habermas e sua relação com a tradição psicológica de Jean Piaget, Lawrence Kohlberg e Elliot Turiel.

Unidade II
A necessidade do naturalismo. Crítica à tradição dualista cartesiana através da obra de António Damásio (Descartes’ Error); leitura de textos selecionados de Charles Darwin; leitura de Jonathan Haidt (The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion); leitura de Richard Joyce (The Evolution of Morality);

Unidade III

O questionamento sobre o livre arbítrio. Leitura de textos selecionados da coletânea Neuroexistentialism: Meaning, Morals, and Purpose in the Age of Neuroscience; leitura de Free will, de Sam Harris; leitura de Alan Jasanoff (The Biological Mind. How Brain, Body, and Environment Collaborate to Make Us Who We Are).

CRONOGRAMA:

Agosto

06/08/18 – Não haverá aula.

13/08/18 – Não haverá aula (Reunião do Departamento de Filosofia)

20/08/18 – Apresentação do curso. Descartes, René. Les meditations metaphysiques & Les passions de l’ame; Skirry, Justin, Descartes and the Metaphysics of Human Nature; Rozemond, Marleen. Descartes’s Dualism; Hoffman, Paul, “The Unity of Descartes’ Man.”

27/08/18 – Descartes, René. Les meditations metaphysiques & Les passions de l’ame; Skirry, Justin, Descartes and the Metaphysics of Human Nature; Rozemond, Marleen. Descartes’s Dualism; Hoffman, Paul, “The Unity of Descartes’ Man.”

Setembro

03/09/18 – Rawls, John. A Theory of Justice; Habermas, Jürgen. Between Naturalism and Religion.

10/09/18 – Damásio, António. Descartes’ Error: Emotion, Reason, and the Human Brain.

17/09/18 – Damásio, António. Descartes’ Error: Emotion, Reason, and the Human Brain.

24/09/18 – Haidt, Jonathan. The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion.

Outubro

01/10/18Feriado Municipal em Seropédica. Não haverá aula. 

08/10/18 – Haidt, Jonathan. The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion.

15/10/18 – Aula cancelada.

22/10/18XVIII Encontro da ANPOF – Não haverá aula.

29/10/18 – Haidt, Jonathan. The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion.

Novembro

05/11/18 –  Caruso, Gregg & Flanagan, Owen (org). Neuroexistentialism: Meaning, Morals, and Purpose in the Age of Neuroscience.

12/11/18Caruso, Gregg & Flanagan, Owen (org). Neuroexistentialism: Meaning, Morals, and Purpose in the Age of Neuroscience.

19/11/18 – Feriadão.

26/11/18 – Jasanoff, Alan. The Biological Mind. How Brain, Body, and Environment Collaborate to Make Us Who We Are.

Dezembro

03/12/18Jasanoff, Alan. The Biological Mind. How Brain, Body, and Environment Collaborate to Make Us Who We Are.

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Bibliografia:

Caruso, Gregg & Flanagan, Owen (org). Neuroexistentialism: Meaning, Morals, and Purpose in the Age of Neuroscience. Oxford University Press, 2017.

Damásio, António. Descartes’ Error: Emotion, Reason, and the Human Brain. Putnam Publishing, 1994.

Darwin, Charles. On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. London: John Murray, 1859.

_____________. The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex. London: John Murray, 1871.

_____________. The Expression of the Emotions in Man and Animals. London: John Murray, 1872.

Descartes, René. Les meditations metaphysiques. Paris: Jean Camusat and Pierre Le Petit, 1647.

______________. Les passions de l’ame. Paris: Henry Le Gras, 1649.

Haidt, Jonathan. The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion. Pantheon, 2012.

Harris, Sam. Free will. Free Press, 2012.

Hoffman, Paul, “The Unity of Descartes’ Man.” The Philosophical Review, 95 (1986), pp. 339-369.

Habermas, Jürgen. Between Naturalism and Religion: Philosophical Essays. Polity, 2008.

Jasanoff, Alan. The Biological Mind. How Brain, Body, and Environment Collaborate to Make Us Who We Are. Basic Books, 2018.

Joyce, Richard. The Evolution of Morality. MIT Press, 2007.

____________. The Myth of Morality. Cambridge University Press, 2007.

____________. The Routledge Handbook of Evolution and Philosophy. Routledge, 2017.

Laland, Kevin. Darwin’s Unfinished Symphony. How Culture Made the Human Mind. Princeton University Press, 2017.

Rawls, John. A Theory of Justice. Cambridge, Massachusetts: Belknap Press of Harvard University Press, revised edition of 1999.

Rozemond, Marleen. Descartes’s Dualism. Cambridge: Harvard University Press, 1998.

Scott, James C. Against the Grain: A Deep History of the Earliest States. Yale University Press, 2017.

Skirry, Justin. Descartes and the Metaphysics of Human Nature. London and New York: Thoemmes-Continuum Press, 2005.

Tomasello, Michael. A Natural History of Human Morality. Harvard University Press, 2016.